Matei uma Barata
Agora há pouco matei uma barata.
Mas não era uma barata qualquer. Era uma ba-ra-ta; pré-histórica; quase 10 centímetros...
Quase um mamute!
Eu já tinha visto essa nojenta outro dia.
Tentei duas chineladas, mas não adiantou. A barata se jogava da parede - literalmente - bem na hora que eu ia acertá-la.
Deixei a janela aberta, com a esperança de que ela tivesse querendo ir embora. Como não a vi mais por uns 2 dias, assumi que ela tinha colaborado com a minha situação.
Foi aí que eu li a notícia de uma pesquisa recenta da UFRJ, onde diz que a inversão térmica do verão faz as baratas saírem dos bueiros e procurarem locais mais frescos: isso mesmo, nossa casa. É parceiro... quando Murphy ataca, Murphy ataca mesmo.
Já não chega o nojo - o completo asco que me dá só imaginar a imagem de uma barata; hoje, eu, revirando meus papéis, dou de cara e quase que encosto numa!
Pra conseguir matar uma barata, você tem que pensar como elas.
Se um cara com muita raiva de mim estivesse me caçando impiedosamente, e eu fosse uma barata, para onde eu iria? Obviamente para o buraco mais escuro e difícil de cavocar possível, tão logo esse maluco desse a primeira chinelada.
A operação se deu mais ou menos assim: primeira coisa, retirar todos os papéis, livros, aparelhos, e pilhas e pilhas de coisas que estavam naquela sala (recém me mudei pessoal), em volta do balcão-hotel apropriado pela Barata.
Levei tudo pra sala ao lado. Ensacolei todas as bugigangas soltas espalhadas ao redor, pra não dar margem à obstáculos me atrapalhando.
Arredei todos os móveis, para não deixar lugares inalcançáveis.
Ela tinha entrado numa caixa. Deixei a caixa para mexer por último.
Enfim tentei matar a desgraçada, mas ela fugiu ao redor daquele balcão umas quatro vezes; todas tentativas de assassinato frustradas. Ela corria por todos os lados, se enfiava em todos os buracos e ficava até de ponta-cabeças nas reentrâncias do móvel.
Bem, pensei: agora que eu tinha movido tudo para a outra sala, essa outra sala automaticamente teria se tornado o lugar preferido para a próxima hospedagem noturna da filha-da-puta da Barata. Eu já tinha me resignado. Comecei a guardar meus livros e ajeitar melhor as coisas, para pelo menos diminuir essa probabilidade.
Pra fazer uma ideia do tamanho da barata, sabe como eu fui conseguir matar a infeliz? ...Eu estava levando os livros da segunda sala pro meu quarto, quando ouvi um barulho naquela primeira sala.
O que eu ouvi era a barata carrendo! A barata era tão grande que dava pra ouvir os "passos" dela!
Peguei a infeliz quase na porta, indo justamente para a sala do lado!
Eu não teria conseguido pensar tão bem como uma barata nem que eu fosse uma!
Teve mais um corre-corre, mas dessa vez em campo aberto: salve Sun Tzu, senhor da guerra, e todos os aprendizados que ele me deu sobre "o terreno"!
A barata dessa vez não teve a menor chance. (Apesar de eu ter fechado os olhos; porque aquela gosma é foda...)
E a tal pesquisa da UFRJ ainda fica do lado das baratas, vê se pode?!
Ah, é comida do passarinho? Ah, faz parte da cadeia alimentar da aranha?
...Eu quero mais é que se fodam todas as baratas!
Os passarinhos e as aranhas que virem vegetarianos, ué! Não está na moda mesmo?!
Finalmente, achei o abridor de vinho que eu tava procurando antes disso tudo.
A lei da compensação pelo menos fez gelar um pouco mais o vinho que eu deixei no freezer.
Um brinde às baratas mortas. Saúde pra mim!
-- João Otero - 24-nov-10 --
24 novembro 2010
23 novembro 2010
música: A Rima
A Rima
(samba)
Você que está aí tão distraída
nessa cadeira de madeira envelhecida
me ouvindo cantar e beijando uma bebida
daquelas fortes, só pra esquecer da vida -
vem me beijar...
Você que me parece tão doída
venha pra perto e se escore cá num canto
pra desfazer essa amargura entristecida
vindo provar o dôce mel dos meus encantos
enquanto eu canto...
Você não tenha pressa de saber
daquela rima em que eu falo de você
como se fôsses minha bela, minha linda
a perdição da minha vida, o meu dôce
como se fôsses...
(ai, aiai, aiai, aiaiai, aiaiai... como se fôsses)
(ai, aiai, aiai, aiaiai, aiaiai... a minha vida e o meu dôce)
Você que em tristes olhos acolheu
os lentos sôfregos arranhos de um violão
enquanto eu toco o seu olhar com os olhos meus
dentro dos seus me vejo só você e eu
pelo salão
Você que se encontrava sem abrigo
já tem meu peito como seu novo recanto
Te quero tanto, mesmo quando eu não te digo
você comigo é a tal rima que reclamo,
pois já te amo!
(ai, aiai, aiai, aiaiai, aiaiai... foi só te ver e eu já te amo!)
(ai, aiai, aiai, aiaiai, aiaiai... foi só te ver e eu já te amo!)
-- João Otero - 22-nov-2010 --
(samba)
Você que está aí tão distraída
nessa cadeira de madeira envelhecida
me ouvindo cantar e beijando uma bebida
daquelas fortes, só pra esquecer da vida -
vem me beijar...
Você que me parece tão doída
venha pra perto e se escore cá num canto
pra desfazer essa amargura entristecida
vindo provar o dôce mel dos meus encantos
enquanto eu canto...
Você não tenha pressa de saber
daquela rima em que eu falo de você
como se fôsses minha bela, minha linda
a perdição da minha vida, o meu dôce
como se fôsses...
(ai, aiai, aiai, aiaiai, aiaiai... como se fôsses)
(ai, aiai, aiai, aiaiai, aiaiai... a minha vida e o meu dôce)
Você que em tristes olhos acolheu
os lentos sôfregos arranhos de um violão
enquanto eu toco o seu olhar com os olhos meus
dentro dos seus me vejo só você e eu
pelo salão
Você que se encontrava sem abrigo
já tem meu peito como seu novo recanto
Te quero tanto, mesmo quando eu não te digo
você comigo é a tal rima que reclamo,
pois já te amo!
(ai, aiai, aiai, aiaiai, aiaiai... foi só te ver e eu já te amo!)
(ai, aiai, aiai, aiaiai, aiaiai... foi só te ver e eu já te amo!)
-- João Otero - 22-nov-2010 --
31 outubro 2010
Anjo que passa
venha meu anjo,
e dance o teu ventre
por entre essas mesas
e seja a beleza
por entre essas taças
desalma-me o dia
desarma-me o punho
desfaça a tristeza
que ia em meu cunho
(e eu sigo vidrado no jeito que passas...)
venha meu anjo,
com tua silhueta
sineta dos sonhos
que eram tristonhos
até teu olhar
dilata-me o instante
destrata-me o beijo
que eu pressuponho
ante o teu desejo
(...mas não me censures só por te beijar!)
-- João Otero - 31-out-10 --
e dance o teu ventre
por entre essas mesas
e seja a beleza
por entre essas taças
desalma-me o dia
desarma-me o punho
desfaça a tristeza
que ia em meu cunho
(e eu sigo vidrado no jeito que passas...)
venha meu anjo,
com tua silhueta
sineta dos sonhos
que eram tristonhos
até teu olhar
dilata-me o instante
destrata-me o beijo
que eu pressuponho
ante o teu desejo
(...mas não me censures só por te beijar!)
-- João Otero - 31-out-10 --
28 outubro 2010
Loucura
cada qual mulher tem sua vil loucura
e eu, com meus cascudos, não entendo nada...
numas sei que fui a loucura provocante
mas de outras eu tive a loucura provocada
vêm com apetrechos, cheias de frescura
uma, de varrida, me deixou por nada
mas depois voltou, cheia de ternura
sendo inda mais louca e se jurando fada
cada qual mulher, uma loucura errante;
cada tal loucura que se faz por nada...
uma, que me amava, se mentia pura
outra, nao me disse e me perdeu na estrada
-- João Otero - 24-28/out/10 --
e eu, com meus cascudos, não entendo nada...
numas sei que fui a loucura provocante
mas de outras eu tive a loucura provocada
vêm com apetrechos, cheias de frescura
uma, de varrida, me deixou por nada
mas depois voltou, cheia de ternura
sendo inda mais louca e se jurando fada
cada qual mulher, uma loucura errante;
cada tal loucura que se faz por nada...
uma, que me amava, se mentia pura
outra, nao me disse e me perdeu na estrada
-- João Otero - 24-28/out/10 --
15 setembro 2010
As Vogais dos Meus Olhos
E depois de rimar essas vogais
que despencam dos meus olhos
com um "vai, meu pai... descanse em paz"
queria que as lêsseis de traz pra frente
e me dissésseis:
"ia, meu filho... não vou mais!"
...Mas eu sei que tu não podes me esquentar
outra vez com teu beijo
se da boca fria o hálito nem sai
Tenho então meus olhos soluçando com as vogais
que eu não queria
rimas de perfeita companhia
ao resto de esperança que me trai
-- João Otero - 26-ago/15-set-10 --
que despencam dos meus olhos
com um "vai, meu pai... descanse em paz"
queria que as lêsseis de traz pra frente
e me dissésseis:
"ia, meu filho... não vou mais!"
...Mas eu sei que tu não podes me esquentar
outra vez com teu beijo
se da boca fria o hálito nem sai
Tenho então meus olhos soluçando com as vogais
que eu não queria
rimas de perfeita companhia
ao resto de esperança que me trai
-- João Otero - 26-ago/15-set-10 --
05 setembro 2010
15 agosto 2010
Houvesse figura
é tão doído
um parto de letras
num buraquinho que nem se consegue saber
pra se dizer o que nem lá se tem consciente
...essas palavras que eu não consigo achar
entre dois-pontos e um parêntese aberto
-- João Otero - 16-ago-10 --
um parto de letras
num buraquinho que nem se consegue saber
pra se dizer o que nem lá se tem consciente
...essas palavras que eu não consigo achar
entre dois-pontos e um parêntese aberto
-- João Otero - 16-ago-10 --
pensamento: E viveram felizes para sempre
"...E viveram felizes para sempre" é algo que um autor preguiçoso escreveu pra não ter que continuar a história em outros livros... E desde então, os demais autores apenas copiaram.
05 agosto 2010
29 julho 2010
Tudo o Que Eu Posso
Tudo o que eu posso
se configura num bem-querer
num avaliar
num decidir
Tudo o que eu posso
se transfigura em não-sentir
num quebra-mar
num "venha aqui!"
Tudo o que eu posso
é bruma branca em dia de sol
é folha seca em um outono
e algum perfume inevitável
na primavera
Tudo o que eu posso
quem me dera!
era querer ser
um pouco mais que esse sofrer
em querer ser o que eu não posso
-- João Otero - 29-jul-10 --
se configura num bem-querer
num avaliar
num decidir
Tudo o que eu posso
se transfigura em não-sentir
num quebra-mar
num "venha aqui!"
Tudo o que eu posso
é bruma branca em dia de sol
é folha seca em um outono
e algum perfume inevitável
na primavera
Tudo o que eu posso
quem me dera!
era querer ser
um pouco mais que esse sofrer
em querer ser o que eu não posso
-- João Otero - 29-jul-10 --
25 julho 2010
19 julho 2010
Hipocondríaco e Sintomático
Hipocondriaco e Sintomático
Eu, hipocondríaco, sintomático, quase transformo em febre reumática uma mera streptococcus. Não é que, preocupado em sufocar de dor, acordo eu e entro na internet pra descobrir do que se trata minha chaga; e horas depois, ao acordar novamente no meio da noite, meu dedão do pé tá inchado, doendo, pulsando, como se eu tivesse chutado a quina do balcão - ou como se eu tivesse mesmo é com uma febre reumática?!
Aos hipocondríacos como eu são aos que mais funcionam os placebos, e aos que menos servem os homeopáticos. Pois é só dizer que há uma chance remota de um efeito colateral para ele virar sintoma líquido e certo; e é só dizer que "leva tempo, mas funciona...", que o tempo esse é exagerado, e vira "nunca" imediatamente!
Eu, hipocondríaco, sintomático, tenho flashback e entro em nóia até com erva natural. ...Nem me arrisco em nada um pouco mais sintetizado!
Eu, hipocondríaco: ao se me despontar um novo amor, já sei, de prévia sabedoria que ele vai durar pouco; que eu vou me entregar de todo; que eu vou sofrer muito... Não, um pouco mais do que isso. Muito mesmo. Já sei que vou ter pano pra manga pra minha poesia por alguns dias. Que o mundo vai acabar e todas aquelas coisas dos hipocondríacos...
E aí eu ligo, escrevo, imploro, me abro como nunca, digo que amo... E no seguinte segundo, "puff" - ela escapuliu! "Eu não disse?!"
...Eu: sintomático!
-- João Otero - 19-jul-10 --
Eu, hipocondríaco, sintomático, quase transformo em febre reumática uma mera streptococcus. Não é que, preocupado em sufocar de dor, acordo eu e entro na internet pra descobrir do que se trata minha chaga; e horas depois, ao acordar novamente no meio da noite, meu dedão do pé tá inchado, doendo, pulsando, como se eu tivesse chutado a quina do balcão - ou como se eu tivesse mesmo é com uma febre reumática?!
Aos hipocondríacos como eu são aos que mais funcionam os placebos, e aos que menos servem os homeopáticos. Pois é só dizer que há uma chance remota de um efeito colateral para ele virar sintoma líquido e certo; e é só dizer que "leva tempo, mas funciona...", que o tempo esse é exagerado, e vira "nunca" imediatamente!
Eu, hipocondríaco, sintomático, tenho flashback e entro em nóia até com erva natural. ...Nem me arrisco em nada um pouco mais sintetizado!
Eu, hipocondríaco: ao se me despontar um novo amor, já sei, de prévia sabedoria que ele vai durar pouco; que eu vou me entregar de todo; que eu vou sofrer muito... Não, um pouco mais do que isso. Muito mesmo. Já sei que vou ter pano pra manga pra minha poesia por alguns dias. Que o mundo vai acabar e todas aquelas coisas dos hipocondríacos...
E aí eu ligo, escrevo, imploro, me abro como nunca, digo que amo... E no seguinte segundo, "puff" - ela escapuliu! "Eu não disse?!"
...Eu: sintomático!
-- João Otero - 19-jul-10 --
Uma Geada
E a manhã alva dos campos de minha terra
Se me tem a camuflar uns lírios, a me apagar as relvas
Anunciada pelo um vento minuano, sempre repentino e forte,
A meio ano
Se me tem trocando o pano pela manta grossa e um pala
Ela que vem e me cala, contragosto, em branca tez
Ela que vem e me pára, num calafrio cortês
Ela que reclama tudo, e cobre tudo, dos meus olhos ao meu pêlo
Mas por baixo dos véus que cegam
Eu sei que brilham as relvas dos meus campos outra vez
E eu aperto meu canto, com nó de lenço vermelho
- Com cheiro de sangue, de guerra -
Para cantar as belezas de minha terra, de onde não me arredo
Por mais judiado que eu seja ao passares
Dama alva, linda... horrenda...
E o meu riso é porque eu sei que não há vento que se prenda!
Te mostro os dentes pois sei que logo após as coxilhas
Tenho o perfume das negras, e a pele-cuia das índias
E os campos que eu sempre quis
Não há pois como eu me renda
A uma passageira prenda
Se no seio da coxilha
Me aguarda tudo o que eu preciso
Para ser feliz
-- João Otero - 19-jul-10 --
Se me tem a camuflar uns lírios, a me apagar as relvas
Anunciada pelo um vento minuano, sempre repentino e forte,
A meio ano
Se me tem trocando o pano pela manta grossa e um pala
Ela que vem e me cala, contragosto, em branca tez
Ela que vem e me pára, num calafrio cortês
Ela que reclama tudo, e cobre tudo, dos meus olhos ao meu pêlo
Mas por baixo dos véus que cegam
Eu sei que brilham as relvas dos meus campos outra vez
E eu aperto meu canto, com nó de lenço vermelho
- Com cheiro de sangue, de guerra -
Para cantar as belezas de minha terra, de onde não me arredo
Por mais judiado que eu seja ao passares
Dama alva, linda... horrenda...
E o meu riso é porque eu sei que não há vento que se prenda!
Te mostro os dentes pois sei que logo após as coxilhas
Tenho o perfume das negras, e a pele-cuia das índias
E os campos que eu sempre quis
Não há pois como eu me renda
A uma passageira prenda
Se no seio da coxilha
Me aguarda tudo o que eu preciso
Para ser feliz
-- João Otero - 19-jul-10 --
09 julho 2010
A minha espera
E eu to ainda pra ver quem vai se abrir num gozo para a vida, encarando num êxtase eterno a duraçao de cada segundo, e viver uma plenitude de sensibilidade sem fechar-se logo em seguida dentro de si e de seus medos privados. Eu to ainda pra ver quem fará sexo com a vida. Eu to ainda pra ver quem vai trocar aqueles poucos segundos de conjunção carnal pela sensibilidade envolvente e mais aflorada de algo mais transcendente. To ainda pra ver quem vai fazer aqueles parcos segundos durarem pra sempre.
07 julho 2010
22 junho 2010
As Bocas Banguelas
As bocas banguelas têm mais sorrisos
As bocas das crias, dos velhos, dos pobres
Se vestem de um manto mais nobre
Do que esses de esmaltes lisos
Não têm caninos tão fortes,
Não refletem externos brilhos,
Não prendem a feroz língua
A boca banguela não míngua seu juízo
As bocas das crias, dos velhos, dos pobres
Não amarelam um sorriso...
-- João Otero - 22-jun-10 --
As bocas das crias, dos velhos, dos pobres
Se vestem de um manto mais nobre
Do que esses de esmaltes lisos
Não têm caninos tão fortes,
Não refletem externos brilhos,
Não prendem a feroz língua
A boca banguela não míngua seu juízo
As bocas das crias, dos velhos, dos pobres
Não amarelam um sorriso...
-- João Otero - 22-jun-10 --
16 junho 2010
texto: Meias Brancas
Meias Brancas
Hoje pela manhã eu descobri sem-querer a solução para o problema do lixo no mundo: meias brancas!
As meias brancas têm a propriedade de sumir com o passar do tempo. Se acondicionarmos todo o lixo do mundo dentro de meias brancas - vupt! - solucionamos o problema do lixo!
...Minha última teoria é a de que as canetas Bic são fabricadas com meias brancas embutidas. Mas é uma hipótese ainda necessitando observações adicionais.
(Isso se elas não sumirem antes...)
-- João Otero - 16-jun-10 --
Hoje pela manhã eu descobri sem-querer a solução para o problema do lixo no mundo: meias brancas!
As meias brancas têm a propriedade de sumir com o passar do tempo. Se acondicionarmos todo o lixo do mundo dentro de meias brancas - vupt! - solucionamos o problema do lixo!
...Minha última teoria é a de que as canetas Bic são fabricadas com meias brancas embutidas. Mas é uma hipótese ainda necessitando observações adicionais.
(Isso se elas não sumirem antes...)
-- João Otero - 16-jun-10 --
10 junho 2010
Olhinhos Minguantes
Olhinhos minguantes -
Como os ciclos enluarados
Dessas minhas paixões retumbantes
Que se camuflam volta e meia em mim
No ocidente, lá praqueles lados...
Onde é renascente - flagelado mas sorridente -
Este meu velho coração cansado
Destas agruras sem-fim
Que vão e vêm, e vêm e saem...
Vazantes como a maré
Perene ciclo constante de novas dores poentes
Mas a espumar-me novamente o peito e a reforçar a minha fé,
...Lá: olhinhos de dó, de pena, de graça;
meiguice; cachaça na mesa dum bar
Tu, extraviadas num canto,
E eu contemplando de longe
À duas mesas de distância, o teu olhar
-- João Otero - 9-jun-10 --
Como os ciclos enluarados
Dessas minhas paixões retumbantes
Que se camuflam volta e meia em mim
No ocidente, lá praqueles lados...
Onde é renascente - flagelado mas sorridente -
Este meu velho coração cansado
Destas agruras sem-fim
Que vão e vêm, e vêm e saem...
Vazantes como a maré
Perene ciclo constante de novas dores poentes
Mas a espumar-me novamente o peito e a reforçar a minha fé,
...Lá: olhinhos de dó, de pena, de graça;
meiguice; cachaça na mesa dum bar
Tu, extraviadas num canto,
E eu contemplando de longe
À duas mesas de distância, o teu olhar
-- João Otero - 9-jun-10 --
09 junho 2010
29 maio 2010
Desencantamento
...E então, querida,
Serás esquecida
Como uma foto amarelada e esmaecida,
Como uma ninguém
Como mais uma formosa entremeada num harém
Serás tão só mais um refrão que um dia eu já cantei
Tu serás quem me esqueceu, e a quem esqueci também
Tu serás rastro de névoa nos quintais de minha vida
Tu serás uma lembrança em alguns cacos repartida
Tu serás doce mistério
Que só o meu passado tem
-- João Otero - 4-29-mai-10 --
Serás esquecida
Como uma foto amarelada e esmaecida,
Como uma ninguém
Como mais uma formosa entremeada num harém
Serás tão só mais um refrão que um dia eu já cantei
Tu serás quem me esqueceu, e a quem esqueci também
Tu serás rastro de névoa nos quintais de minha vida
Tu serás uma lembrança em alguns cacos repartida
Tu serás doce mistério
Que só o meu passado tem
-- João Otero - 4-29-mai-10 --
22 maio 2010
Da procura
Vende-se tragédias!
Tragédias feitas de pó e vento
Que contrapesam êxtases imerecidos
Vende-se tragédias que complementam vidas
-- João Otero - 22-mai-10 --
Tragédias feitas de pó e vento
Que contrapesam êxtases imerecidos
Vende-se tragédias que complementam vidas
-- João Otero - 22-mai-10 --
Porque pediste pra eu falar de cores (Amarelo)
Eu e os ébrios - braços dados numa saudosa harmonia
Sob o reflexo dourado do luar fraterno já minguando mais um dia
Brindo! com mais cinco dedos de gelada alegria
À sapiência deste olhar impreciso
Que vê em dobro a beleza
E que duplica os sorrisos dessas bocas tão macias!
Veja outros poemas da coleção Cores
-- João Otero - 22-mai-10 --
Sob o reflexo dourado do luar fraterno já minguando mais um dia
Brindo! com mais cinco dedos de gelada alegria
À sapiência deste olhar impreciso
Que vê em dobro a beleza
E que duplica os sorrisos dessas bocas tão macias!
Veja outros poemas da coleção Cores
-- João Otero - 22-mai-10 --
14 maio 2010
Pontacabeça
Prólogo:
Eu sei que meu português ficou uma bosta neste texto. Mas não importa muito. A mensagem é o mais importante.
Pontacabeça
Eu olho em volta e vejo tudo muito raso, muito rápido, muito superficial, muito efêmero.
Relacionamentos fast-food, pegos numa caixinha em uma balada da moda qualquer, e largados em alguma lixeira 15 minutos depois.
Todos pegando todos, e ninguém lembrando de ninguém.
Namorados que não se vêem no sábado, que preferem sair com os amigos. Que não sentem falta um do outro.
Vejo beijos fazendo fila na boca de qualquer um/uma...
Vejo a ostentação sendo usada muito eficazmente como uma arma na busca por sexo... E vejo pessoas caindo nessa! O ingresso de tanto, o passe que é VIP, o dono de tal empresa, o "amigo" influente, a bebida mais cara, a casa da moda, as roupas de marca, o carro mais caro...
Eu vejo a sinceridade virando algo conveniente e circunstancial: não ouço mentiras, mas tampouco ouço as verdades, pois elas são escondidas.
Eu vejo a falta de franqueza; a falta do vou-dizer-na-tua-cara.
Eu vejo a falta de envolvimento, despreocupação com os sentimentos alheios: vejo um jogo de conquistas, e os sentimentos virarem troféus.
Eu vejo a busca pelo prazer rápido, descomprometido, descartável.
Eu vejo relacionamentos tapa-buracos, convenientes para preencher as happy(dead)-hours pós trabalho.
Vejo pessoas se comunicando online num domingo, estando na mesma cidade, estando às vezes na mesma sala...
Eu fico triste vendo as pessoas se tratando e sendo tratadas como joguetes.
Amigos amarelos; máscaras sociais; joguinhos sociais; comportamentos subliminares.
Eu vejo todas essas coisas em excesso, dia após dia. E me falta o que preencha a minha alma. E duvido que essas coisas preencham alguma alma, aliás.
Eu sinto pena pelas pessoas que agem assim; e que de fato acreditam (isso é o pior) estarem fazendo o melhor para si. Pena porque talvez nunca descubram de verdade uma felicidade mais longa.
Eu vejo pressa em ter-se o que não importa, e paciência demais, morosidade demais em se buscar as coisas que importam. Todos querem status, carreira, dinheiro; ninguém quer música, companheirismo, risadas, jantar em família...
Todos perguntam "O que você faz?"; ninguém pergunta "O que você quer fazer?".
Todos perguntam "Onde você mora?"; ninguém pergunta "Aonde você vai?".
Eu vejo conformismo, e isso me indigna...
Valores invertidos. Mundo de pontacabeça.
Eu vejo escravos da vida estudar-trabalhar-casar-ter-filhos; escravos das normas; escravos do que a família-amigos-sociedade vai pensar; escravos do conformismo das coisas-que-são-assim-e-não-vão-mudar.
Eu vejo pessoas desistindo de tudo muito fácil, pelas mais esfarrapadas desculpas: desistindo dos sonhos, desistindo de uma paixão, desistindo de uma aventura, desistindo de um amor. Mentem à si mesmas.
Eu vejo pessoas desacreditando que a bondade existe em maior oferta no coração das pessoas do que existem a sacanagem, a malandragem, a maldade, o desrespeito.
Isso me lembra um pouco o fundamento do terrorismo, sobrevivente pelos noticiários da noite ou através das páginas policiais de jornal... Porque embora haja sim sacanagem, malandragem e maldade, tudo isso é muito pequeno, mas causa um impacto muito grande.
As pessas mudam de comportamento porque amplificam uma percepção negativa muito além do que deveriam. As pessoas mudam de comportamento porque passam a sentir medo demais. E todos, aterrorizados, ficam imóveis. Rugido de um tigre: pessoas imóveis! Situação adversa: pessoas imóveis! Terrorismo: pessoas imóveis! Medos, medos, medos: pessoas imóveis dentro de si; pessoas egoístas; pessoas que não se deixam levar. Merda de cérebro que funciona assim.
E eu vejo muitas pessoas com medo: de sofrer, de se entregar, de persistir, de se arriscar... Morrendo sem saber. Vivendo sem sentir. Sentindo até, mas muito pouco; muito menos do que poderiam... E por que? Porque têm medo. Não há como sentir o máximo sem que seja se arriscando ao máximo também.
Mas o medo de sentir-se mal é maior do que o benefício de sentir-se bem, paradoxalmente.
Isso não entra na minha cabeça: como alguém prefere o não-sentir ao sentir-se muito bem, só por existir um risco de sentir-se mal?! Zumbis... Zumbis é que não sentem! Sinto como se tivesse nascido no lugar errado, na época errada.
Que graça tem viver uma vida que um dia acaba - sempre - se for só pra deixar ela passar pela gente?! Sentir-se mal, que seja, não vale mais a pena?! Sentir-se bem, não vale o risco?!
Só a coragem enfrenta o medo. Só a fé - que é acreditar por acreditar, sem ter certezas - é capaz de gerar coragem.
Falta fé.
Eu só quero dizer que eu não faço parte dessa merda.
Um contra-argumento seria me perguntar se eu sou feliz. Não sou; e é cada vez mais difícil. Mas eu ainda tenho fé.
E quando eu for, vai ser 100%, não pela metade.
A minha fé é que haja mais alguém que também não faça parte dessa merda toda... E se houver, não diga, simplesmente: haja com um pouco mais de caráter, com uma pitada a mais de coragem. Terás assim ajudado o mundo a viver um pouco melhor. E terás me ajudado também.
-- João Otero - 14-mai-10 --
Eu sei que meu português ficou uma bosta neste texto. Mas não importa muito. A mensagem é o mais importante.
Pontacabeça
Eu olho em volta e vejo tudo muito raso, muito rápido, muito superficial, muito efêmero.
Relacionamentos fast-food, pegos numa caixinha em uma balada da moda qualquer, e largados em alguma lixeira 15 minutos depois.
Todos pegando todos, e ninguém lembrando de ninguém.
Namorados que não se vêem no sábado, que preferem sair com os amigos. Que não sentem falta um do outro.
Vejo beijos fazendo fila na boca de qualquer um/uma...
Vejo a ostentação sendo usada muito eficazmente como uma arma na busca por sexo... E vejo pessoas caindo nessa! O ingresso de tanto, o passe que é VIP, o dono de tal empresa, o "amigo" influente, a bebida mais cara, a casa da moda, as roupas de marca, o carro mais caro...
Eu vejo a sinceridade virando algo conveniente e circunstancial: não ouço mentiras, mas tampouco ouço as verdades, pois elas são escondidas.
Eu vejo a falta de franqueza; a falta do vou-dizer-na-tua-cara.
Eu vejo a falta de envolvimento, despreocupação com os sentimentos alheios: vejo um jogo de conquistas, e os sentimentos virarem troféus.
Eu vejo a busca pelo prazer rápido, descomprometido, descartável.
Eu vejo relacionamentos tapa-buracos, convenientes para preencher as happy(dead)-hours pós trabalho.
Vejo pessoas se comunicando online num domingo, estando na mesma cidade, estando às vezes na mesma sala...
Eu fico triste vendo as pessoas se tratando e sendo tratadas como joguetes.
Amigos amarelos; máscaras sociais; joguinhos sociais; comportamentos subliminares.
Eu vejo todas essas coisas em excesso, dia após dia. E me falta o que preencha a minha alma. E duvido que essas coisas preencham alguma alma, aliás.
Eu sinto pena pelas pessoas que agem assim; e que de fato acreditam (isso é o pior) estarem fazendo o melhor para si. Pena porque talvez nunca descubram de verdade uma felicidade mais longa.
Eu vejo pressa em ter-se o que não importa, e paciência demais, morosidade demais em se buscar as coisas que importam. Todos querem status, carreira, dinheiro; ninguém quer música, companheirismo, risadas, jantar em família...
Todos perguntam "O que você faz?"; ninguém pergunta "O que você quer fazer?".
Todos perguntam "Onde você mora?"; ninguém pergunta "Aonde você vai?".
Eu vejo conformismo, e isso me indigna...
Valores invertidos. Mundo de pontacabeça.
Eu vejo escravos da vida estudar-trabalhar-casar-ter-filhos; escravos das normas; escravos do que a família-amigos-sociedade vai pensar; escravos do conformismo das coisas-que-são-assim-e-não-vão-mudar.
Eu vejo pessoas desistindo de tudo muito fácil, pelas mais esfarrapadas desculpas: desistindo dos sonhos, desistindo de uma paixão, desistindo de uma aventura, desistindo de um amor. Mentem à si mesmas.
Eu vejo pessoas desacreditando que a bondade existe em maior oferta no coração das pessoas do que existem a sacanagem, a malandragem, a maldade, o desrespeito.
Isso me lembra um pouco o fundamento do terrorismo, sobrevivente pelos noticiários da noite ou através das páginas policiais de jornal... Porque embora haja sim sacanagem, malandragem e maldade, tudo isso é muito pequeno, mas causa um impacto muito grande.
As pessas mudam de comportamento porque amplificam uma percepção negativa muito além do que deveriam. As pessoas mudam de comportamento porque passam a sentir medo demais. E todos, aterrorizados, ficam imóveis. Rugido de um tigre: pessoas imóveis! Situação adversa: pessoas imóveis! Terrorismo: pessoas imóveis! Medos, medos, medos: pessoas imóveis dentro de si; pessoas egoístas; pessoas que não se deixam levar. Merda de cérebro que funciona assim.
E eu vejo muitas pessoas com medo: de sofrer, de se entregar, de persistir, de se arriscar... Morrendo sem saber. Vivendo sem sentir. Sentindo até, mas muito pouco; muito menos do que poderiam... E por que? Porque têm medo. Não há como sentir o máximo sem que seja se arriscando ao máximo também.
Mas o medo de sentir-se mal é maior do que o benefício de sentir-se bem, paradoxalmente.
Isso não entra na minha cabeça: como alguém prefere o não-sentir ao sentir-se muito bem, só por existir um risco de sentir-se mal?! Zumbis... Zumbis é que não sentem! Sinto como se tivesse nascido no lugar errado, na época errada.
Que graça tem viver uma vida que um dia acaba - sempre - se for só pra deixar ela passar pela gente?! Sentir-se mal, que seja, não vale mais a pena?! Sentir-se bem, não vale o risco?!
Só a coragem enfrenta o medo. Só a fé - que é acreditar por acreditar, sem ter certezas - é capaz de gerar coragem.
Falta fé.
Eu só quero dizer que eu não faço parte dessa merda.
Um contra-argumento seria me perguntar se eu sou feliz. Não sou; e é cada vez mais difícil. Mas eu ainda tenho fé.
E quando eu for, vai ser 100%, não pela metade.
A minha fé é que haja mais alguém que também não faça parte dessa merda toda... E se houver, não diga, simplesmente: haja com um pouco mais de caráter, com uma pitada a mais de coragem. Terás assim ajudado o mundo a viver um pouco melhor. E terás me ajudado também.
-- João Otero - 14-mai-10 --
07 maio 2010
Teus Cabelos
Não há mais os teus cabelos pelo banco do meu carro...
Mas há um fiapo... Há um fiapo ainda aqui!
Desses cabelos que um dia eu conheci
Com as pontas de meus dedos
Desses cabelos que eu até senti
Uma vez o gosto, o medo...
O cheiro! - perfumado de vaidade
...Esse fiapo dos teus cabelos
se enosou na minha saudade
-- João Otero - 7-mai-10 --
Mas há um fiapo... Há um fiapo ainda aqui!
Desses cabelos que um dia eu conheci
Com as pontas de meus dedos
Desses cabelos que eu até senti
Uma vez o gosto, o medo...
O cheiro! - perfumado de vaidade
...Esse fiapo dos teus cabelos
se enosou na minha saudade
-- João Otero - 7-mai-10 --
06 maio 2010
05 maio 2010
04 maio 2010
Passatempo
Minha cabeça, se afogando em horas-lixo -
Que são tão só esbanjadoras dos meus dias
Que um a um, e em penoso sacrifício
Que é tão dôce, qual o gôsto que eu lhe tinha
Disponho ao tempo - incinerante e compreensivo;
Vai se esquecendo e se ocupando até à tardinha
Da dor de um peito - lancinante e possessiva
Que só amanhã, depois do sono - quando venha
Volta a sofrer, mas já mais terna e esmaecida
-- João Otero - 4-maio-10 --
Que são tão só esbanjadoras dos meus dias
Que um a um, e em penoso sacrifício
Que é tão dôce, qual o gôsto que eu lhe tinha
Disponho ao tempo - incinerante e compreensivo;
Vai se esquecendo e se ocupando até à tardinha
Da dor de um peito - lancinante e possessiva
Que só amanhã, depois do sono - quando venha
Volta a sofrer, mas já mais terna e esmaecida
-- João Otero - 4-maio-10 --
29 abril 2010
Dores
Me doem no peito uns amores...
De uns sorrisos, de uns olhares, de umas cores
Que tive - ou achei que tive
Como sinceros aos meus louvores
...E outros olhos (cheios de cores!)
...E outros lábios (cheios de amores!)
...E outros braços (cheios de flores!)
Passam nas ruas...
Enquanto meu peito - cheio de dores
Me tem doendo mais uns amores
-- João Otero - 29-abr-10 --
De uns sorrisos, de uns olhares, de umas cores
Que tive - ou achei que tive
Como sinceros aos meus louvores
...E outros olhos (cheios de cores!)
...E outros lábios (cheios de amores!)
...E outros braços (cheios de flores!)
Passam nas ruas...
Enquanto meu peito - cheio de dores
Me tem doendo mais uns amores
-- João Otero - 29-abr-10 --
27 abril 2010
26 abril 2010
Escolhas
Não se pode ter tudo.
É inevitável: não se ganha nada sem se perder algo em troca.
Nossa esperança é ter um pouco de juízo e alguma sorte para decidir agora sobre as escolhas que se mostrarão as mais sábias no futuro.
E não há muito mais certeza na decisão de agora do que a que há num jogo de azar...
Nem sempre as melhores escolhas são realmente as melhores escolhas.
Certo, mesmo, é que nunca se pode ter tudo.
A fé, no final das contas, é só o que resta.
É inevitável: não se ganha nada sem se perder algo em troca.
Nossa esperança é ter um pouco de juízo e alguma sorte para decidir agora sobre as escolhas que se mostrarão as mais sábias no futuro.
E não há muito mais certeza na decisão de agora do que a que há num jogo de azar...
Nem sempre as melhores escolhas são realmente as melhores escolhas.
Certo, mesmo, é que nunca se pode ter tudo.
A fé, no final das contas, é só o que resta.
22 abril 2010
Poeminha ao vento
Se um vento assim qualquer te soprar ao pé do ouvido
Bem decerto que fui eu que sussurrou pensando em ti
Mas se ao toque dele, mudo, despertar-te a libido
Foi tão só um beijo meu que se perdeu por aí...
-- João Otero - 22-04-10 --
Bem decerto que fui eu que sussurrou pensando em ti
Mas se ao toque dele, mudo, despertar-te a libido
Foi tão só um beijo meu que se perdeu por aí...
-- João Otero - 22-04-10 --
16 abril 2010
Inefável
Eu quero uma revolução, uma guerra,
Uma epidemia
Uma dor de verdade
Uma verdade mais crua
Uma poça de vômito no meio da rua
Um caco encravado na unha
E uma costela partida
Eu quero da esperança a cara triste,
Definhando um sorriso banguela;
E eu com o dedo em riste
Abafando uma saudade
Eu quero um punho em figa
Uma marca da mão estendida na cara
Um pontapé pontiagudo na barriga
Esmagando a realidade
Das verdades que qualquer um diga
Eu quero meu olho cerrado
Os cílios como espinhos encrustrados
Sobre minhas pálpebras ressentidas
E a minha liberdade teria outro gosto
Eu, desapegado de mim mesmo,
Indiferente à minha própria felicidade,
Descuidado de meu próprio rosto
Seria livre, enfim!, para até me ser cruel de mim,
Para até sorver o meu desgosto
E tudo o que me tivessem seria bom
Pois tudo o que eu quisesse, nem ia querer...
Porque de tanto ter, eu não teria nada...
De tanto ser, eu não seria pôrra de nada
Eu não teria pó, nem pena,
Eu não teria pedra,
Eu não teria estrada...
-- João Otero - 16-abr-10 --
Uma epidemia
Uma dor de verdade
Uma verdade mais crua
Uma poça de vômito no meio da rua
Um caco encravado na unha
E uma costela partida
Eu quero da esperança a cara triste,
Definhando um sorriso banguela;
E eu com o dedo em riste
Abafando uma saudade
Eu quero um punho em figa
Uma marca da mão estendida na cara
Um pontapé pontiagudo na barriga
Esmagando a realidade
Das verdades que qualquer um diga
Eu quero meu olho cerrado
Os cílios como espinhos encrustrados
Sobre minhas pálpebras ressentidas
E a minha liberdade teria outro gosto
Eu, desapegado de mim mesmo,
Indiferente à minha própria felicidade,
Descuidado de meu próprio rosto
Seria livre, enfim!, para até me ser cruel de mim,
Para até sorver o meu desgosto
E tudo o que me tivessem seria bom
Pois tudo o que eu quisesse, nem ia querer...
Porque de tanto ter, eu não teria nada...
De tanto ser, eu não seria pôrra de nada
Eu não teria pó, nem pena,
Eu não teria pedra,
Eu não teria estrada...
-- João Otero - 16-abr-10 --
07 abril 2010
Montanha Encantada
Montanha Encantada - (Diálogo Poético com Carlos Drummond de Andrade)
Enquanto mais alto ela ia,
mais encantada ficava
E nessa montanha dourada eu subia, subia...
Mas tinha uma pedra no meio do caminho.
No meio do caminho tinha uma pedra.
E enquanto eu descia rolando, devagarinho
menos encantado eu me tornava...
-- João Otero - 7-abr-10 --
Enquanto mais alto ela ia,
mais encantada ficava
E nessa montanha dourada eu subia, subia...
Mas tinha uma pedra no meio do caminho.
No meio do caminho tinha uma pedra.
E enquanto eu descia rolando, devagarinho
menos encantado eu me tornava...
-- João Otero - 7-abr-10 --
06 abril 2010
05 abril 2010
Elegia da Minha Própria Morte
Logo eu comecei, fui vivendo a vida - e ela adoecia...
A cada dia a mais, um dia a menos me vinha
Quanto mais eu a usava, muito menos dela eu tinha
E ela me apressava,
Olhava pra mim e se ria...
Ria ela de Mim! A vida breve e fraca
A vida parca e rota,
A vida opaca e fria..!
Então desisti da vida e fui viver minha morte -
Como se mais moça, como se mais forte,
Como com mais gosto e muito mais sabida,
E com mais intuito
De seguir adiante
A sua própria vida...
E então - eu já morrendo - fui Eu lá rir dessa vida!
Ri dessa vida fraca, ri dessa vida fria
E fiz da minha nova morte uma constante elegia
Espiei as frestas, como se espia,
Coisas de curiosos aonde quer que eu ia
E me esfreguei em braços que eu nem sabia
Se eram tão sinceros - mas eu nem queria...
Fui sorver orvalhos que eu não conhecia
Desses que se brotam em erva-daninha
...E enquanto eu fui morrendo, nesse meu dia-a-dia,
A cada um dia a menos, um dia a mais eu tinha!
E um dia, tudo se foi...
Foi-se a vida, foi-se troça, foi-se a morte -
Que eu tive breve e sem-sorte -
Mas que foi muito bem vivida!
-- João Otero - 3-abr-2010 --
A cada dia a mais, um dia a menos me vinha
Quanto mais eu a usava, muito menos dela eu tinha
E ela me apressava,
Olhava pra mim e se ria...
Ria ela de Mim! A vida breve e fraca
A vida parca e rota,
A vida opaca e fria..!
Então desisti da vida e fui viver minha morte -
Como se mais moça, como se mais forte,
Como com mais gosto e muito mais sabida,
E com mais intuito
De seguir adiante
A sua própria vida...
E então - eu já morrendo - fui Eu lá rir dessa vida!
Ri dessa vida fraca, ri dessa vida fria
E fiz da minha nova morte uma constante elegia
Espiei as frestas, como se espia,
Coisas de curiosos aonde quer que eu ia
E me esfreguei em braços que eu nem sabia
Se eram tão sinceros - mas eu nem queria...
Fui sorver orvalhos que eu não conhecia
Desses que se brotam em erva-daninha
...E enquanto eu fui morrendo, nesse meu dia-a-dia,
A cada um dia a menos, um dia a mais eu tinha!
E um dia, tudo se foi...
Foi-se a vida, foi-se troça, foi-se a morte -
Que eu tive breve e sem-sorte -
Mas que foi muito bem vivida!
-- João Otero - 3-abr-2010 --
Despautérios
Eu tenho pressa de ti!
Vivo na ânsia do sempre!
E são eternos esses minutos ternos e carinhosos dos teus agrados...
...Mas são mais longas as infindáveis delongas desses teus carinhos sempre atrasados
E até espero por ti
Mas do meu jeito - presente
E quando não vens faz ausente o que eu mais quero - e já não te quero mais cá do meu lado...
...Mas quando não quero, consentes; do beijo mais puro ao mais profanado
Então desatino por ti!
Pairo na volúpia ardida
Eu, do teu lado, apressado
Tu, no teu passo, perdida
-- João Otero - 3-abr-2010 --
Vivo na ânsia do sempre!
E são eternos esses minutos ternos e carinhosos dos teus agrados...
...Mas são mais longas as infindáveis delongas desses teus carinhos sempre atrasados
E até espero por ti
Mas do meu jeito - presente
E quando não vens faz ausente o que eu mais quero - e já não te quero mais cá do meu lado...
...Mas quando não quero, consentes; do beijo mais puro ao mais profanado
Então desatino por ti!
Pairo na volúpia ardida
Eu, do teu lado, apressado
Tu, no teu passo, perdida
-- João Otero - 3-abr-2010 --
29 março 2010
28 março 2010
Sem grilhões
tive uma sensação tão boa,
mesmo que açoitado;
mesmo que num domingo mal-agradecido,
e enquanto eu ouço essa chuva
antes que o meu presente minta...
tive uma sensação tão boa,
-- João Otero - 28-mar-10 --
obs: o blogspot não respeita meus espaçamentos.
assim,
de que Eu mando em mim...mesmo que açoitado;
mesmo que num domingo mal-agradecido,
atrapalhado,
véspera de segunda...e enquanto eu ouço essa chuva
cinza,
e percebo que eu ainda não tenho trinta...antes que o meu presente minta...
tive uma sensação tão boa,
assim,
naquele instante,
de que minha vida pertence a mim
de que minha vida segue avante
de que minha vida segue avante
-- João Otero - 28-mar-10 --
obs: o blogspot não respeita meus espaçamentos.
27 março 2010
Disso que eu tenho
Têm que vir como pitadas de tempero:
que apimentam o gosto e o cheiro;
nos fazem sentir melhor...
Mas não pode ser costumeiro
Porque, de massa sonsa e sem-cheiro,
vir-se a sentir o tempo inteiro
pode ser até pior...
-- João Otero - 27-mar-10 --
que apimentam o gosto e o cheiro;
nos fazem sentir melhor...
Mas não pode ser costumeiro
Porque, de massa sonsa e sem-cheiro,
vir-se a sentir o tempo inteiro
pode ser até pior...
-- João Otero - 27-mar-10 --
22 março 2010
O Escapulário Encantado
Era uma vez...
Um escapulário encantado
que uma Princesa me deu
Tornava o céu estrelado,
ensejo transformava em beijo,
abraço transformava em mel
Mas eu fui tão desastrado,
veja só o que aconteceu:
roubei o coraçãozinho dela,
que veio pra dentro do meu!
-- João Otero - 22-mar-10 --
Um escapulário encantado
que uma Princesa me deu
Tornava o céu estrelado,
ensejo transformava em beijo,
abraço transformava em mel
Mas eu fui tão desastrado,
veja só o que aconteceu:
roubei o coraçãozinho dela,
que veio pra dentro do meu!
-- João Otero - 22-mar-10 --
Perfume
Tu és rosa que atrai e afasta
e com teus espinhos pontiagudos traça
uma vidraça pra esses teus perfumes
E a pele grossa desses meus costumes
não se perturba com os teus arranhos:
estilha uns cacos, sangra e te arrasta
pra fora dessa tua vidraça,
pra dentro deste meu tapume
A singeleza dessas tuas carícias
- delicadeza vil que manipula -
em nada hão de me comover:
dobrar-se-ão em ofensas omissas
na mão viril que ora te empunha
com a maestreza que só eu sei ter
-- João Otero - 22/mar/2010 --
e com teus espinhos pontiagudos traça
uma vidraça pra esses teus perfumes
E a pele grossa desses meus costumes
não se perturba com os teus arranhos:
estilha uns cacos, sangra e te arrasta
pra fora dessa tua vidraça,
pra dentro deste meu tapume
A singeleza dessas tuas carícias
- delicadeza vil que manipula -
em nada hão de me comover:
dobrar-se-ão em ofensas omissas
na mão viril que ora te empunha
com a maestreza que só eu sei ter
-- João Otero - 22/mar/2010 --
Diálogo poético 1
Convite à Esperança
Maldita és tu Esperança!
Porque não morres primeiro?
Fazes-me esperar o dia inteiro por um céu mais anil...
Não vês que o que me têm é tão vil?!
Porque me deixas a esperar que se acalente minha alma?
Porque me fazes ter tanta desta horrenda calma?!
Porque não vais por primeiro ao invés de esperar tua hora?
Vamos juntos então - que seja - mas vamos agora!
Pra quê aguardar o enfado para só então ir embora?
Desgraçada tu és, Esperança mesquinha
Que sempre quiste ser última,
Quando ao menos uma vez, a última hora devia ser minha!
-- João Otero - 4/nov/09 --
Calma Desespero
Bendito és tu Desespero!
Por que não vês tua pujança?
Tu impulsionas o coração que só quer ser mais viril,
mesmo depois de ser taxado de hostil.
Tens fome de curar a dor que não se acalma
Enquanto eu espero o tempo de mãos atadas.
Saiba que do tempo sou preceito e do viés eu sou Senhora.
Impossível partir antes, pois ao equilíbrio damos forma.
Assim, cubro-te com o manto do consolo que me sobra.
Atrás de teus pés, Desespero, caminho.
Acreditando que tua dor vai embora sozinha.
Pois, se ficares por último, tua existência definha.
-- Nayara Oliveira - algum momento até 22/mar/10 --
visitem o blog da Nayara: http://retratopranana.blogspot.com/
Maldita és tu Esperança!
Porque não morres primeiro?
Fazes-me esperar o dia inteiro por um céu mais anil...
Não vês que o que me têm é tão vil?!
Porque me deixas a esperar que se acalente minha alma?
Porque me fazes ter tanta desta horrenda calma?!
Porque não vais por primeiro ao invés de esperar tua hora?
Vamos juntos então - que seja - mas vamos agora!
Pra quê aguardar o enfado para só então ir embora?
Desgraçada tu és, Esperança mesquinha
Que sempre quiste ser última,
Quando ao menos uma vez, a última hora devia ser minha!
-- João Otero - 4/nov/09 --
Calma Desespero
Bendito és tu Desespero!
Por que não vês tua pujança?
Tu impulsionas o coração que só quer ser mais viril,
mesmo depois de ser taxado de hostil.
Tens fome de curar a dor que não se acalma
Enquanto eu espero o tempo de mãos atadas.
Saiba que do tempo sou preceito e do viés eu sou Senhora.
Impossível partir antes, pois ao equilíbrio damos forma.
Assim, cubro-te com o manto do consolo que me sobra.
Atrás de teus pés, Desespero, caminho.
Acreditando que tua dor vai embora sozinha.
Pois, se ficares por último, tua existência definha.
-- Nayara Oliveira - algum momento até 22/mar/10 --
visitem o blog da Nayara: http://retratopranana.blogspot.com/
21 março 2010
Relacionamento
Um de um, e dois somente!
Todo relacionamento substantivo é verbo - e intransitivo -
em que alguns estalos de paixão se tem.
E nesse meu vocabulário - arcaico, se quiseres -
a única dor existente é a morte de alguém...
Mas essa morte, de vida inteira, dura pouco:
somente até a necessária besteira
de o outro morrer também.
-- João Otero - 21-mar-10 --
Todo relacionamento substantivo é verbo - e intransitivo -
em que alguns estalos de paixão se tem.
E nesse meu vocabulário - arcaico, se quiseres -
a única dor existente é a morte de alguém...
Mas essa morte, de vida inteira, dura pouco:
somente até a necessária besteira
de o outro morrer também.
-- João Otero - 21-mar-10 --
19 março 2010
Meu Doce Suicídio
Decidi morrer do meu jeito, após o meu último pedido
E pedi para correr os riscos, de tudo o que me fez querer o suicídio
E enquanto eu me suicido - afogado no êxtase de tiradas de duplo sentido,
ou soluçando humor-negro embebido em vinho tinto -
veio um anjo branco de olhos claros segurar a minha mão e morrer junto comigo
E esta morte eu quero bem vivida...
Porque nao há nada melhor do que ir morrendo a vida
escolhendo como se morrer
-- João Otero - 18-mar-10 --
E pedi para correr os riscos, de tudo o que me fez querer o suicídio
E enquanto eu me suicido - afogado no êxtase de tiradas de duplo sentido,
ou soluçando humor-negro embebido em vinho tinto -
veio um anjo branco de olhos claros segurar a minha mão e morrer junto comigo
E esta morte eu quero bem vivida...
Porque nao há nada melhor do que ir morrendo a vida
escolhendo como se morrer
-- João Otero - 18-mar-10 --
21 fevereiro 2010
17 dezembro 2009
O jeito errado
Não consegui extravasar o tanto de emoção que eu senti
entre a doçura e a aspereza
da minha infância e do destino que me tem incerto.
Não consegui desvencilhar-me da certeza
que desviar-me da pureza é o jeito certo de prosseguir atrapalhado.
E por mais que todos tenham me falado
que o coração é o caminho acertado,
olho pra ele - e ele apertado, agarrando-se nuns minutos vagos dum presente misturado em uns muitos sonhos -
e vendo ao lado que nessa estrada restaram só alguns poucos desgarrados
- heróis minguados, já costurando suas chagas -
não consegui extravasar do jeito certo
a costumeira incerteza diária e companheira
do meu marasmo e das besteiras que eu não fiz.
E o jeito errado de seguir do jeito certo,
talvez um dia isso me seja revelado
na orelha dum livro, num acorde, num suspiro gritado...
E porquanto sendo ignorante, fazendo certo, seguindo parado,
não consegui extravasar-me da angústia,
de nesta minha meia-vida
- ainda -
não conseguir ter feito nada certo
nem nada errado.
-- João Otero - 17-dez-09 --
entre a doçura e a aspereza
da minha infância e do destino que me tem incerto.
Não consegui desvencilhar-me da certeza
que desviar-me da pureza é o jeito certo de prosseguir atrapalhado.
E por mais que todos tenham me falado
que o coração é o caminho acertado,
olho pra ele - e ele apertado, agarrando-se nuns minutos vagos dum presente misturado em uns muitos sonhos -
e vendo ao lado que nessa estrada restaram só alguns poucos desgarrados
- heróis minguados, já costurando suas chagas -
não consegui extravasar do jeito certo
a costumeira incerteza diária e companheira
do meu marasmo e das besteiras que eu não fiz.
E o jeito errado de seguir do jeito certo,
talvez um dia isso me seja revelado
na orelha dum livro, num acorde, num suspiro gritado...
E porquanto sendo ignorante, fazendo certo, seguindo parado,
não consegui extravasar-me da angústia,
de nesta minha meia-vida
- ainda -
não conseguir ter feito nada certo
nem nada errado.
-- João Otero - 17-dez-09 --
01 dezembro 2009
Obra-prima
Teus retorces; obra-prima do meu gozo!
Em consentidos arranhos nas ancas e sôfregos suspiros de inclemente agonia,
Na escalada ansiosa ante o abismo sem-volta do regozijo - e da revolta - que eu sentia...
Tu, três vezes mais te contorcias
E eu, dopado de alegrias breves mais tardias,
Não antevia o grande nojo, que se estanca, mas que derrama - ah! se derrama, um dia...
E nestas tintas sangradas das telas de minhas retinas
Guardarei teu semblante apertado, o teu batom vermelho borrado, a tua boca suculenta mordida...
Tuas pernas tremulando atravessadas, teu cabelo crespo esparramado e a tua mão entreaberta, estendida.
E deste embate enegrecido e retalhado és meu despojo;
Tu, suprema obra-prima do meu nojo,
Retorce entorpecido da minha vida!
-- João Otero - 28/29-nov-09 --
Em consentidos arranhos nas ancas e sôfregos suspiros de inclemente agonia,
Na escalada ansiosa ante o abismo sem-volta do regozijo - e da revolta - que eu sentia...
Tu, três vezes mais te contorcias
E eu, dopado de alegrias breves mais tardias,
Não antevia o grande nojo, que se estanca, mas que derrama - ah! se derrama, um dia...
E nestas tintas sangradas das telas de minhas retinas
Guardarei teu semblante apertado, o teu batom vermelho borrado, a tua boca suculenta mordida...
Tuas pernas tremulando atravessadas, teu cabelo crespo esparramado e a tua mão entreaberta, estendida.
E deste embate enegrecido e retalhado és meu despojo;
Tu, suprema obra-prima do meu nojo,
Retorce entorpecido da minha vida!
-- João Otero - 28/29-nov-09 --
Não quero mais
Terminar é o que eu mais sei na minha vida
Terminar, não concluir;
Terminar assim, sem o por-vir
É o que mais tenho feito nesta vida
Eu sei deixar aberta minha ferida
Eu sei voltar de um beco-sem-saída
Com um passo nem tão calmo, mas nem manco
E quando se me dá em solavanco minha partida,
Percebo que minha alma, ressentida,
Se apega outra vez num sopro franco...
Terminar é o que eu mais fiz durante a vida
Terminar, não concluir;
Terminar sem mais, com dor, sem rir...
"Não quero mais" - hei de mentir
Terminar, talvez, pra não sentir
Minha parca esperança iludida
-- João Otero - 19-nov-09 --
Terminar, não concluir;
Terminar assim, sem o por-vir
É o que mais tenho feito nesta vida
Eu sei deixar aberta minha ferida
Eu sei voltar de um beco-sem-saída
Com um passo nem tão calmo, mas nem manco
E quando se me dá em solavanco minha partida,
Percebo que minha alma, ressentida,
Se apega outra vez num sopro franco...
Terminar é o que eu mais fiz durante a vida
Terminar, não concluir;
Terminar sem mais, com dor, sem rir...
"Não quero mais" - hei de mentir
Terminar, talvez, pra não sentir
Minha parca esperança iludida
-- João Otero - 19-nov-09 --
Para dizer
Requer-se algum sobejo de sensibilidade alheia para que se possa dizer alguma coisa linda,
...ou alguma coisa extremamente feia.
-- João Otero - 22-nov-09 --
...ou alguma coisa extremamente feia.
-- João Otero - 22-nov-09 --
Poesia a ti
É, eu acho que gosto mesmo de ti...
Me atraquei a ser poeta como nunca vi!
...Eu já penso-poesia quando penso-em-ti!
-- Joao Otero - 5-nov-09 --
Me atraquei a ser poeta como nunca vi!
...Eu já penso-poesia quando penso-em-ti!
-- Joao Otero - 5-nov-09 --
Rio de Janeiro
Fui passsear na bahia
Me disseram que era Rio de Janeiro
Olhei por lado e só vi praia
Não vi o rio;
E é inverno - estamos em julho!
...ou será que é janeiro?
-- João Otero - 1-ago-09 --
Me disseram que era Rio de Janeiro
Olhei por lado e só vi praia
Não vi o rio;
E é inverno - estamos em julho!
...ou será que é janeiro?
-- João Otero - 1-ago-09 --
Na Queda
Se soprarem novos ares...que venham!
Rasgando meu rosto aos uivos, e que tenham
Dó, raiva e desgosto
Elevando minhas asas ao céu, pra eu cair de mais alto!
E que me sinta na queda
Sorver sua carícia fugaz
Gostando do medo que faz
O gélido frio do salto
Pois o que leva, um dia traz...
A emoção contrária da queda
na dura face da pedra,
a qual um dia beijei
No frio de uma dor assaz
Vivi a vida que fiz
Onde jamais alguém quis,
Um dia estive
e voltei!
-- João Otero - 1-mai-03 --
Rasgando meu rosto aos uivos, e que tenham
Dó, raiva e desgosto
Elevando minhas asas ao céu, pra eu cair de mais alto!
E que me sinta na queda
Sorver sua carícia fugaz
Gostando do medo que faz
O gélido frio do salto
Pois o que leva, um dia traz...
A emoção contrária da queda
na dura face da pedra,
a qual um dia beijei
No frio de uma dor assaz
Vivi a vida que fiz
Onde jamais alguém quis,
Um dia estive
e voltei!
-- João Otero - 1-mai-03 --
27 novembro 2009
Falo
Eu falo faloe você nao entende...
Tem muito mais que eu queria fazer!
Eu falo falo
se estou descontente
e você nao entende,
ou finge nao saber
Eu, enquanto falo,
deixo você sorridente!
Mas das minhas vírgulas você nao entende -
ou finge não querer
Só sei que se estou descontente,
mesmo se for de repente,
eu falo falo e procuro você
...E ainda você nao entende
que enquanto eu falo falo,
pra muito mais eu preciso você!
-- João Otero - 27-nov-09 --
Tem muito mais que eu queria fazer!
Eu falo falo
se estou descontente
e você nao entende,
ou finge nao saber
Eu, enquanto falo,
deixo você sorridente!
Mas das minhas vírgulas você nao entende -
ou finge não querer
Só sei que se estou descontente,
mesmo se for de repente,
eu falo falo e procuro você
...E ainda você nao entende
que enquanto eu falo falo,
pra muito mais eu preciso você!
-- João Otero - 27-nov-09 --
24 novembro 2009
Dúvida
o que fazer quando não tens, já tendo?
o que fazer com o que já ia sendo
e agora vai... como já vai se vendo?
o que é meu, isso eu não dou, não vendo
mas e o que quero mais, como eu emendo?
e o que mostrar pra quem não está vendo?
isso que se esvai... isso que ia sendo...
o que fazer quando eu lembrar tremendo
da fé que cri, que já me tem descrendo?
a minha agonia, essa me vai crescendo...
o que fazer quando tu tens, não tendo?
-- João Otero - 24-nov-09 --
o que fazer com o que já ia sendo
e agora vai... como já vai se vendo?
o que é meu, isso eu não dou, não vendo
mas e o que quero mais, como eu emendo?
e o que mostrar pra quem não está vendo?
isso que se esvai... isso que ia sendo...
o que fazer quando eu lembrar tremendo
da fé que cri, que já me tem descrendo?
a minha agonia, essa me vai crescendo...
o que fazer quando tu tens, não tendo?
-- João Otero - 24-nov-09 --
22 novembro 2009
Sorrisos Banguelas
Hoje percebo que as bocas banguelas têm mais sorrisos.
Nos tombos infantis ou nos quebrados da velhice,
As bocas banguelas têm mais sorrisos.
E os brancos dentes de marfim e madrepérolas,
Os desentortes de metal,
O sangue cuspido no asfalto...
...São meia-vidas na jornada pela inocência perdida
Que os corações doídos, os erros e os conflitos extremados se abrandem naturalmente.
Assim como caem os dentes.
"Just a little patience", é só o que é preciso.
"Nous ne pouvon pas perdre la naïveté."
-- João Otero - 22-nov-09 --
Nos tombos infantis ou nos quebrados da velhice,
As bocas banguelas têm mais sorrisos.
E os brancos dentes de marfim e madrepérolas,
Os desentortes de metal,
O sangue cuspido no asfalto...
...São meia-vidas na jornada pela inocência perdida
Que os corações doídos, os erros e os conflitos extremados se abrandem naturalmente.
Assim como caem os dentes.
"Just a little patience", é só o que é preciso.
"Nous ne pouvon pas perdre la naïveté."
-- João Otero - 22-nov-09 --
18 novembro 2009
Exército de Mim
Milhares de coisas se alinham à minha frente
Um exército de coisas contra mim, somente
Milhares de mim, em seus diversos tons diferentes...
E mesmo assim, eu ainda sou pouca gente!
-- João Otero - 18-nov-09 --
Um exército de coisas contra mim, somente
Milhares de mim, em seus diversos tons diferentes...
E mesmo assim, eu ainda sou pouca gente!
-- João Otero - 18-nov-09 --
Meus Amores e seus Horrores
Meus amores têm horrores,
cada qual com seu cantar
Tamborilem seus tambores
quando os virem desfilar
Corneteiem aos quatro ventos
minhas dores, meu pesar
Cada qual dos meus amores
tem seu horror singular
E àquele amor que profira
silêncios ao me chamar
Àquele que com ausência
de carícias me tocar
Esse amor terá de mim
amores sem fim
que eu vou lhe dar!
-- João Otero - 18-nov-09 --
cada qual com seu cantar
Tamborilem seus tambores
quando os virem desfilar
Corneteiem aos quatro ventos
minhas dores, meu pesar
Cada qual dos meus amores
tem seu horror singular
E àquele amor que profira
silêncios ao me chamar
Àquele que com ausência
de carícias me tocar
Esse amor terá de mim
amores sem fim
que eu vou lhe dar!
-- João Otero - 18-nov-09 --
17 novembro 2009
13 novembro 2009
poesia: Tempo
Tempo
Olhei ao lado e o tempo ia...
Vagarosamente, num vagar errante
Deslizando viscoso num mar de presentes
Que iam passando, passando, passando...
Olhei o tempo, que ia balançando
Num trotear capenga, em movimento brando
Ia, nem curvado, nem ereto, sendo
Um rastro de névoa no gélido campo
E quando eu passei, ele foi me vendo
Ir no meu trotear, claudicando manco
Olhei ao lado e ia indo o tempo
Enquanto eu fui passando, passando, passando...
-- João Otero - 13-nov-09 --
Olhei ao lado e o tempo ia...
Vagarosamente, num vagar errante
Deslizando viscoso num mar de presentes
Que iam passando, passando, passando...
Olhei o tempo, que ia balançando
Num trotear capenga, em movimento brando
Ia, nem curvado, nem ereto, sendo
Um rastro de névoa no gélido campo
E quando eu passei, ele foi me vendo
Ir no meu trotear, claudicando manco
Olhei ao lado e ia indo o tempo
Enquanto eu fui passando, passando, passando...
-- João Otero - 13-nov-09 --
05 novembro 2009
Olhos
Os meus olhos inchados, feito dois radares
Escaneando as ruas e todos os lugares
Te encontrando em cada sombra, em cada blusa amarrotada
Os meus olhos absortos, esperando na escada
Orando preces desconcertantes e inconformadas
Com a proeminência sutil de uma agulha gotejada
De veneno e ânsias, de bruxas e de fadas
Olhando às vezes torto, a me fazer palhaço
Ou murchando as minhas pétalas, todo feito em pedaços
Trarão um dia minhas pálpebras acenando apavoradas
Cedendo ao solo sujo esses meus joelhos castigados
Ao dobrarem-se no amor da minha garganta sufocada
E essa dor gentil - bendita dor tão esperada,
Sobrepujando o tédio, embaralhando os meus enfados
Ah, essa dor..! Não trocarei por nada!
-- Joao Otero - 27-10-09 - 5-nov-09 --
Escaneando as ruas e todos os lugares
Te encontrando em cada sombra, em cada blusa amarrotada
Os meus olhos absortos, esperando na escada
Orando preces desconcertantes e inconformadas
Com a proeminência sutil de uma agulha gotejada
De veneno e ânsias, de bruxas e de fadas
Olhando às vezes torto, a me fazer palhaço
Ou murchando as minhas pétalas, todo feito em pedaços
Trarão um dia minhas pálpebras acenando apavoradas
Cedendo ao solo sujo esses meus joelhos castigados
Ao dobrarem-se no amor da minha garganta sufocada
E essa dor gentil - bendita dor tão esperada,
Sobrepujando o tédio, embaralhando os meus enfados
Ah, essa dor..! Não trocarei por nada!
-- Joao Otero - 27-10-09 - 5-nov-09 --
04 novembro 2009
02 novembro 2009
poesia: Madrugada
Madrugada
A lua no mar é coisa linda
ao brilho de estrelas embalada
Espia pelo véu de algumas nuvens
enquanto se esconde acanhada
da onda incensurada que nos brinda
Ah! Que coisa linda a madrugada!
-- Joao Otero 2-nov-09 --
A lua no mar é coisa linda
ao brilho de estrelas embalada
Espia pelo véu de algumas nuvens
enquanto se esconde acanhada
da onda incensurada que nos brinda
Ah! Que coisa linda a madrugada!
-- Joao Otero 2-nov-09 --
01 novembro 2009
30 outubro 2009
Por te gostar
Te gosto, sem mais, por te gostar, somente
E te gostando tanto, com um gostar ardente
gosto-te mais do que me gosto, e sofro
neste gostoso alento de degustar teu gosto
E de gostar-te tanto, de te gostar sem medo
eu gosto até de só lembrar teu rosto
E ao te gostar de longe, de te gostar tão cedo
gosto-te o dobro que te tenho dito
gosto-te tal qual coração aflito
gosto-te mais do que eu teria gosto
-- João Otero - 30-out-09 --
E te gostando tanto, com um gostar ardente
gosto-te mais do que me gosto, e sofro
neste gostoso alento de degustar teu gosto
E de gostar-te tanto, de te gostar sem medo
eu gosto até de só lembrar teu rosto
E ao te gostar de longe, de te gostar tão cedo
gosto-te o dobro que te tenho dito
gosto-te tal qual coração aflito
gosto-te mais do que eu teria gosto
-- João Otero - 30-out-09 --
25 outubro 2009
Poesia: Sonhos
Sonhos
..São mais desvairios de um maluco insistente
a provocar o ócio desta impotente rotina;
a projetar memórias mais coloridas na retina
de um futuro errante e quase que ausente
E o presente, lá se vai... Nem vi
Quem sabe um dia apareça de repente
naquele canto onde eu talvez me sente
para rimar os sonhos que eu vivi
-- João Otero - 25-out-09 --
..São mais desvairios de um maluco insistente
a provocar o ócio desta impotente rotina;
a projetar memórias mais coloridas na retina
de um futuro errante e quase que ausente
E o presente, lá se vai... Nem vi
Quem sabe um dia apareça de repente
naquele canto onde eu talvez me sente
para rimar os sonhos que eu vivi
-- João Otero - 25-out-09 --
23 outubro 2009
poesia: Se o teu pão fosse ázimo
Se o teu pão fosse ázimo
não me cheiraria a pão
Me alimentaria a alma
e não algum coração
Se o teu pão fosse ázimo
o tomaria em tua mão
E não de alguns pedaços
rasgados com aflição
Se o teu pão fosse ázimo
me elevaria à imensidão
Não a um sufocante claustro
de liberta privação
Se o teu pão fosse ázimo
Mas não
-- João Otero - 23-out-09 --
não me cheiraria a pão
Me alimentaria a alma
e não algum coração
Se o teu pão fosse ázimo
o tomaria em tua mão
E não de alguns pedaços
rasgados com aflição
Se o teu pão fosse ázimo
me elevaria à imensidão
Não a um sufocante claustro
de liberta privação
Se o teu pão fosse ázimo
Mas não
-- João Otero - 23-out-09 --
10 setembro 2009
07 agosto 2009
08 junho 2009
fotos: Umas fotos aleatórias
05 junho 2009
04 junho 2009
texto: A vida às vezes tem uns ciclos..
A vida às vezes tem uns ciclos... Remexendo por acaso meus escritos, achei um texto que serve pra hoje. Ei-lo:
"Hoje eu acordei de um sono mal dormido. Parecia estranho... Não me sentia bem, nem muito mal.
Passei a tarde assim, peito apertado, garganta apertada. Quem sabe é stress... não sei.
Sentimento de vazio.
O que vem depois? ...De hoje; de 1 mês; no fim do ano?
Nada parece ter graça. Nada parece bonito; mas não parece feio também.
Procuro um sentido em qualquer coisa, mas não acho.
A vida se apresenta sem graça pra mim.
Não tenho nenhum objetivo; parece que falta um sentido na minha vida.
Lembro de você o tempo todo. Mas só te enxergo triste em minhas lembranças. Tento parar de pensar.
Fico olhando para os lados tentando achar algo para me ocupar. Mas nada tem graça.
Tenho muita coisa pra fazer, mas não tenho vontade.
Saudade? Cansaço? Um dia ruim? Não sei...
Tomara amanhã eu não esteja assim. 28/jun/2000"
Não tinha título. Não lembro pra quem foi. Mas quero acreditar que tenha sido uma carta minha pra mim mesmo, quase 9 anos depois... Ao menos, veio a calhar.
"Hoje eu acordei de um sono mal dormido. Parecia estranho... Não me sentia bem, nem muito mal.
Passei a tarde assim, peito apertado, garganta apertada. Quem sabe é stress... não sei.
Sentimento de vazio.
O que vem depois? ...De hoje; de 1 mês; no fim do ano?
Nada parece ter graça. Nada parece bonito; mas não parece feio também.
Procuro um sentido em qualquer coisa, mas não acho.
A vida se apresenta sem graça pra mim.
Não tenho nenhum objetivo; parece que falta um sentido na minha vida.
Lembro de você o tempo todo. Mas só te enxergo triste em minhas lembranças. Tento parar de pensar.
Fico olhando para os lados tentando achar algo para me ocupar. Mas nada tem graça.
Tenho muita coisa pra fazer, mas não tenho vontade.
Saudade? Cansaço? Um dia ruim? Não sei...
Tomara amanhã eu não esteja assim. 28/jun/2000"
Não tinha título. Não lembro pra quem foi. Mas quero acreditar que tenha sido uma carta minha pra mim mesmo, quase 9 anos depois... Ao menos, veio a calhar.
17 maio 2009
poesia: Te desafio, minha linda
Te desafio, minha linda
Não sou feito cereal - de um sabor só, com conservantes...
Não sou definido, sempre o mesmo; tenho um furor mais errante...
Mudam meu rosto e meu tom... assim como muda a tua boca,
com teu batom cor-de-frio
Só meu bem-querer por ti não muda em nenhum segundo
Eu vim deturpar o teu mundo, te lançar um desafio
Quando os ponteiros das horas ficarem iguais aos minutos,
Sorri... mas não conta, minha linda!
Pedidos contados não valem, transgressão da minha vida...
Não te catei sem razão do meio de tantos vultos
Quero enroscar em tuas mãos as minhas linhas às tuas;
desenrolar teus novelos e ir remendando os teus furos...
Quero enozar na tua perna pra esquentar nossas duas
Entre a verdade ingênua e o gosto da consequência
quero somente a essência, de um jeito que não estranhes,
e jogarei pra perder, querendo que tu me ganhes:
me cante um verso invertido no verso esmaecido da bolacha de cerveja
Fica away como quem sai, e na verdade vai...
...mas volta, depois,
trazendo uma rosa champagne
que como um escudo proteja de um rapto consentido,
pois ainda quero que vejas o nosso tempo parar
Não são só balas e dôces pra te açucarar a saliva..
Quero espichar essa noite que nos foge tão furtiva
e avisar a esse sol que ainda há lua lá em cima!
Diz lá pra ele esperar...
E nesse momento imóvel - e nesse frio, esse vento... -
eu enebriado nas tintas desses teus olhos meigos,
desses teus olhos mudos...;
nesse teu delicado aroma de chocolate branco;
em meio a sinceros suspiros e mais mil encantos...;
de mãos dadas, minha linda, faremos de tudo!
-- João Otero - 17-mai-2009 --
Não sou feito cereal - de um sabor só, com conservantes...
Não sou definido, sempre o mesmo; tenho um furor mais errante...
Mudam meu rosto e meu tom... assim como muda a tua boca,
com teu batom cor-de-frio
Só meu bem-querer por ti não muda em nenhum segundo
Eu vim deturpar o teu mundo, te lançar um desafio
Quando os ponteiros das horas ficarem iguais aos minutos,
Sorri... mas não conta, minha linda!
Pedidos contados não valem, transgressão da minha vida...
Não te catei sem razão do meio de tantos vultos
Quero enroscar em tuas mãos as minhas linhas às tuas;
desenrolar teus novelos e ir remendando os teus furos...
Quero enozar na tua perna pra esquentar nossas duas
Entre a verdade ingênua e o gosto da consequência
quero somente a essência, de um jeito que não estranhes,
e jogarei pra perder, querendo que tu me ganhes:
me cante um verso invertido no verso esmaecido da bolacha de cerveja
Fica away como quem sai, e na verdade vai...
...mas volta, depois,
trazendo uma rosa champagne
que como um escudo proteja de um rapto consentido,
pois ainda quero que vejas o nosso tempo parar
Não são só balas e dôces pra te açucarar a saliva..
Quero espichar essa noite que nos foge tão furtiva
e avisar a esse sol que ainda há lua lá em cima!
Diz lá pra ele esperar...
E nesse momento imóvel - e nesse frio, esse vento... -
eu enebriado nas tintas desses teus olhos meigos,
desses teus olhos mudos...;
nesse teu delicado aroma de chocolate branco;
em meio a sinceros suspiros e mais mil encantos...;
de mãos dadas, minha linda, faremos de tudo!
-- João Otero - 17-mai-2009 --
05 maio 2009
poesia: Soneto da Desforra
Soneto da Desforra
Por entre as frestas ouço - mas que assaz tortura! -
os teus inglórios suspiros e alguns rumores
de que tu me queres afagar com outras dores,
envoltas em ardentes gestos de candura...
Tua vulgar, insípida e inócua peçonha,
dizendo a mais de quatro ventos que me ama -
e quando eu sei que o teu afago me conclama
a ser um mero prisioneiro da vergonha -
não vai nem mesmo conquistar algum despojo.
Pros restos do retalho, dentro da ranhura,
trarei a divina obra-prima do teu nojo:
um ninho de mágoas e horrores requintado
darei a tantas que têm peito atrapalhado;
a essas tantas que mendigam por ternura...
-- João Otero - 5-maio-09 --
Por entre as frestas ouço - mas que assaz tortura! -
os teus inglórios suspiros e alguns rumores
de que tu me queres afagar com outras dores,
envoltas em ardentes gestos de candura...
Tua vulgar, insípida e inócua peçonha,
dizendo a mais de quatro ventos que me ama -
e quando eu sei que o teu afago me conclama
a ser um mero prisioneiro da vergonha -
não vai nem mesmo conquistar algum despojo.
Pros restos do retalho, dentro da ranhura,
trarei a divina obra-prima do teu nojo:
um ninho de mágoas e horrores requintado
darei a tantas que têm peito atrapalhado;
a essas tantas que mendigam por ternura...
-- João Otero - 5-maio-09 --
23 abril 2009
poesia: Mar e Ilha
Mar e Ilha
Tu, que de vermelho e preto já me provocou o olhar;
que com teu jeito meigo me lançou ao mar
e com canto de sereia aprisionou-me em ilha
- com esses gestos e desejos tão de longe...
Sê meu mar e ilha, pra eu virar teu monge
e na minha solitude contemplar tua maravilha!
-- Joao Otero - 23-abr-09 --
Tu, que de vermelho e preto já me provocou o olhar;
que com teu jeito meigo me lançou ao mar
e com canto de sereia aprisionou-me em ilha
- com esses gestos e desejos tão de longe...
Sê meu mar e ilha, pra eu virar teu monge
e na minha solitude contemplar tua maravilha!
-- Joao Otero - 23-abr-09 --
21 abril 2009
poesia: Ardente
e tudo de súbito é claro - o que já foi transparente
um sangue do meu próprio peito jorrou-se em mácula, ausente
se era o outro lado, o sinistro!, o lado então descontente
porque não deságua ele, e é este lado o vertente?
e tudo de súbito é claro - eu de dois lados carente
o chicote que me adestra foi um carrasco veemente
o lado esquerdo, cortado, já tornou-se indiferente
o lado direito, coitado, passou a ser o que sente
-- João Otero - 21-abril-09 --
Malvada
oh! desdenhosa dona de um coraçao carcomido
malvada dama que beijou meu caro amigo
te quero mal, mas não sou teu inimigo
de minha parte, o teu maior castigo,
vai ser saber
que por completo me poderías ter tido
mas nunca mais vais ter!
-- Joao Otero - 21-abr-09 --
malvada dama que beijou meu caro amigo
te quero mal, mas não sou teu inimigo
de minha parte, o teu maior castigo,
vai ser saber
que por completo me poderías ter tido
mas nunca mais vais ter!
-- Joao Otero - 21-abr-09 --
07 março 2009
05 dezembro 2008
Sorte
com uma parca sorte
sempre atrasada
e numa vida em morte
embrulhada
com a bixada pança
empanturrada
com a esperança em cólica
maltratada
umas tristes mágoas
afogadas
em lágrimas alcoólicas
com a testa inchada
tendo as unhas sujas,
e com mãos farpadas
que na enchada sofrem
calejadas
ao ungir a boca
seca e desgraçada
e tendo a rasa vala
sempre almejada
(que de nenhuma sorte
nunca é alcançada)
levantou a água
beatificada
e ao beijar a taça
grossa e maculada
foi tombar ao largo
da fria calçada
-- Joao Otero, 5-dez-2008 --
sempre atrasada
e numa vida em morte
embrulhada
com a bixada pança
empanturrada
com a esperança em cólica
maltratada
umas tristes mágoas
afogadas
em lágrimas alcoólicas
com a testa inchada
tendo as unhas sujas,
e com mãos farpadas
que na enchada sofrem
calejadas
ao ungir a boca
seca e desgraçada
e tendo a rasa vala
sempre almejada
(que de nenhuma sorte
nunca é alcançada)
levantou a água
beatificada
e ao beijar a taça
grossa e maculada
foi tombar ao largo
da fria calçada
-- Joao Otero, 5-dez-2008 --
20 novembro 2008
Angel
If I saw a butterfly,
with wings wide open
floating in the air...
like seeing you passing by
with your sweet green eyes
making me swear
that if I had a chance
I would not miss it,
that if I had your lips
they would've been kissed!
I think that no... I wouldn't swear!
I would have waited
and let her free
to choose the best time
to come to me.
But, see, this butterfly...
your're not like her.
I see more colors in your delicate skin
I see more truth in your human sins
...and I see a sun that isn't fair.
'Cause it goes down, and you'll be gone.
Tomorrow night I'll be alone
- no butterly to dance to me!
So, time is running, and I can't wait.
And even thought with foolish faith,
I have to try to catch your flight,
in kisses, pictures, 'round my arms...
I have to try to hold you tight,
at least to think that I can hide
the sun from time,
the time from you
...and freeze your wings.
-- Joao Otero nov-2008 --
with wings wide open
floating in the air...
like seeing you passing by
with your sweet green eyes
making me swear
that if I had a chance
I would not miss it,
that if I had your lips
they would've been kissed!
I think that no... I wouldn't swear!
I would have waited
and let her free
to choose the best time
to come to me.
But, see, this butterfly...
your're not like her.
I see more colors in your delicate skin
I see more truth in your human sins
...and I see a sun that isn't fair.
'Cause it goes down, and you'll be gone.
Tomorrow night I'll be alone
- no butterly to dance to me!
So, time is running, and I can't wait.
And even thought with foolish faith,
I have to try to catch your flight,
in kisses, pictures, 'round my arms...
I have to try to hold you tight,
at least to think that I can hide
the sun from time,
the time from you
...and freeze your wings.
-- Joao Otero nov-2008 --
10 novembro 2008
Teal
there's a fading blurred line
between deep ocean
and sky,
there where you lose your eyes
into the waves
- or clouds,
where you don't know if you'll go
to where your heart loudly shouts,
where you don't know if you'll drown,
or maybe float,
or just walk
away from the shooting star
where once upon was a sign
to guide your sight and your route
-- Joao Otero nov/2008 --
between deep ocean
and sky,
there where you lose your eyes
into the waves
- or clouds,
where you don't know if you'll go
to where your heart loudly shouts,
where you don't know if you'll drown,
or maybe float,
or just walk
away from the shooting star
where once upon was a sign
to guide your sight and your route
-- Joao Otero nov/2008 --
01 outubro 2008
Causo
Dizia meu vô que certa vez ao entrar num banheiro dum restaurante de beira-de-estrada ouviu alguém exclamar lá de dentro aos demais do recinto: "...Mas uma cagada é a melhor coisa do mundo!".
Admirado, eis que meu vô responde:
"Ou esse cara não sabe foder, ou sou eu que não sei cagar!".
É... Vivendo e aprendendo.
Admirado, eis que meu vô responde:
"Ou esse cara não sabe foder, ou sou eu que não sei cagar!".
É... Vivendo e aprendendo.
28 agosto 2008
Bifurcações
britadeiras barulhentas, batidas, barbáries...
belo benfeitor, baratos bifocais.
benditas badaladas!
bonde, bifurcação, bosque...bordel!
bisbilhotices, baralhos, bizarrices bestiais
banho, belas brincando, barbitúricos, Ballantines
bolso balançando... barganha...
bala!
corpo boiando.
Veja outros poemas da coleção Letras
-- João Otero - 2-mar-2005 --
14 agosto 2008
Paixão e Amor (piegas, eu sei)
- por João Otero - 14/agosto/08
Enjôo muito facilmente.
Sempre me perguntei "como?" é que pessoas encontram suas almas-gêmeas e que diabos de amor é esse que faz as pessoas ficarem juntas para o resto da vida...
Na ignorância da minha adolescência sempre me pareceu impossível; no máximo, conformista.
Mas na análise das motivações acerca das separações (e que são muitas aqui nos EUA!) e na discussão entre amigos sobre a perecividade (ou não) da paixão, acabei por achar a minha resposta.
Pois que seja a paixão perecível, e que o amor não se sustente sem paixão, como sobrevivem os amores? Ou seriam apenas conveniências e conformismos os sobreviventes?
Mas e a paixão platônica, eterna, romancista, literária - existiria? Que sem graça a vida em não existindo!
Pois minha resposta é simples: o amor não sobrevive sem paixão - fato; mas as paixões não cessam, e sim se transformam.
Há três fases básicas, talvez quatro (ou até mais) nos relacionamentos longevos, todos sustentados por paixão, e que constróem o amor verdadeiro.
Primeiro há a paixão-larva, essa que se canta nas músicas, facilmente reconhecível, arrebatadora; seu propósito é a união inicial, a atração. E ela dura um tempo.
Depois, a paixão-casulo, trabalhosa, cultivante, se preparando para merecedora da borboleta....
E enfim a paixão-borboleta: reconhecedora de todo o esforço, colorida e orgulhosa dele.
A característica intrínseca mais marcante de qualquer paixão pode talvez ser a "descoberta". Cujo antônimo, o "tédio", define também justamente o seu ocaso. E então, se o romance-larva sobreviveu aos demais infortúnios e provações, é hora de trocar de brinquedo. E há no curso natural da vida outras "descobertas" a que se apaixonar: filhos podem ser uma nova motivação comum, um novo jogo, um novo desafio. Vira-se casulo.
Durante esse jogo, mais tarde, construiu-se, sem se perceber, um livro. E a história ganha peso suficiente, e alegrias e obstáculos acumulados o suficiente, para pôr na balança e justificar decisões, manter união, fazer valer a pena. Está-se borboleta.
E quem sabe ainda vêm os netos... (E sei lá eu o que acontece com as borboletas...)
A paixão nunca deixa de existir. Muda de cara. Mas está sempre lá, prestando suporte ao amor.
...Mas e eu, que enjôo muito facilmente?!
Bem, acho que ainda sou larva.
Se quiserem, me chamem de "verme"... ;)
Ou, a quem se arriscar, convença-me a casulo.
Enjôo muito facilmente.
Sempre me perguntei "como?" é que pessoas encontram suas almas-gêmeas e que diabos de amor é esse que faz as pessoas ficarem juntas para o resto da vida...
Na ignorância da minha adolescência sempre me pareceu impossível; no máximo, conformista.
Mas na análise das motivações acerca das separações (e que são muitas aqui nos EUA!) e na discussão entre amigos sobre a perecividade (ou não) da paixão, acabei por achar a minha resposta.
Pois que seja a paixão perecível, e que o amor não se sustente sem paixão, como sobrevivem os amores? Ou seriam apenas conveniências e conformismos os sobreviventes?
Mas e a paixão platônica, eterna, romancista, literária - existiria? Que sem graça a vida em não existindo!
Pois minha resposta é simples: o amor não sobrevive sem paixão - fato; mas as paixões não cessam, e sim se transformam.
Há três fases básicas, talvez quatro (ou até mais) nos relacionamentos longevos, todos sustentados por paixão, e que constróem o amor verdadeiro.
Primeiro há a paixão-larva, essa que se canta nas músicas, facilmente reconhecível, arrebatadora; seu propósito é a união inicial, a atração. E ela dura um tempo.
Depois, a paixão-casulo, trabalhosa, cultivante, se preparando para merecedora da borboleta....
E enfim a paixão-borboleta: reconhecedora de todo o esforço, colorida e orgulhosa dele.
A característica intrínseca mais marcante de qualquer paixão pode talvez ser a "descoberta". Cujo antônimo, o "tédio", define também justamente o seu ocaso. E então, se o romance-larva sobreviveu aos demais infortúnios e provações, é hora de trocar de brinquedo. E há no curso natural da vida outras "descobertas" a que se apaixonar: filhos podem ser uma nova motivação comum, um novo jogo, um novo desafio. Vira-se casulo.
Durante esse jogo, mais tarde, construiu-se, sem se perceber, um livro. E a história ganha peso suficiente, e alegrias e obstáculos acumulados o suficiente, para pôr na balança e justificar decisões, manter união, fazer valer a pena. Está-se borboleta.
E quem sabe ainda vêm os netos... (E sei lá eu o que acontece com as borboletas...)
A paixão nunca deixa de existir. Muda de cara. Mas está sempre lá, prestando suporte ao amor.
...Mas e eu, que enjôo muito facilmente?!
Bem, acho que ainda sou larva.
Se quiserem, me chamem de "verme"... ;)
Ou, a quem se arriscar, convença-me a casulo.
04 agosto 2008
Best Doughnut in the World Ever
25 julho 2008
Franqueza
Já aprendi que não se muda ninguém.
E cabe a ti aceitar ou recusar o que é, do jeito que é. Só te cabe a escolha, e nada mais.
Triste, como pode parecer; mas simples. A vida é muito simples. Nós é que teimamos em complicar.
A verdade é estampada. Cabe a ti ser apenas franco.
E vale notar que a franqueza difere da verdade.
A verdade é impessoal, o cerne de um fato. A franqueza transcende a verdade: é um valor e define caráter.
A verdade é implícita; a franqueza, explícita.
A verdade pode ser mascarada, omitida; a franqueza não.
A franqueza é a verdade proposital, não apenas circunstancial; não espera ser inquirida, indagada ou examinada; ela é apresentada expontaneamente, crua e sem intenção.
A verdade pode acompanhar a dúvida; a franqueza é companheira apenas da certeza - seja ela qual for.
Entre a verdade e a franqueza, prefiro receber o tratamento da última. Mesmo na dor que ela eventualmente provoque, e que a simples verdade - ou sua falta - poupasse. Porque a dor da franqueza é derradeira: é o chão, e de lá se constrói o alicerce, sabendo-se que o terreno é firme.
E mesmo que ambas se anteponham à mentira, o fazem em diferentes maneiras. A verdade aceita sua convivência, eventualmente. Mas a franqueza não.
E essa mentira, que "tem pernas curtas", é um fenômeno entrópico. Muita energia é necessária para que ela sobreviva...
E toda essa energia, física e psíquica, consome. Causa pequenas frustrações que se acumulam e influenciam. Tanto para o enganado quanto para o enganador.
Toda mentira cai em contradição, eventualmente, se levada por muito tempo. E mesmo o pior dos cegos, um dia a vê.
E para ambos o enganador e o enganado, a noção consciente de se estar afastando-se de seus próprios princípios, dos valores que cada um tem a si próprio como certo e errado, leva invariavelmente ao destino da amargura.
E é claro que há mentiras inocentes: mas atribua-as grau pela tua própria consciência, pois tua consciência nunca trai
a ti mesmo, mesmo que tu queiras ter-te enganado. O teu certo e o teu errado, embora relativos aos demais, são absolutos a ti, e por conta deles é que te definirás feliz ou amargo.
Então, para quê desperdiçar tempo, fechando os olhos? Encurte-se o caminho - a franqueza é uma aliada.
Cutuque tua própria ferida. Dê a cara a tapa. Assuma teus erros. E assuma teus desencantos também.
Tão mais logo quanto o fizeres, tão mais vivo e livre serás.
Nao te contentes em ser apenas verdadeiro, mesmo que não te favoreça de imediato: sejas franco.
-- por João Otero - 25-jul-08 --
E cabe a ti aceitar ou recusar o que é, do jeito que é. Só te cabe a escolha, e nada mais.
Triste, como pode parecer; mas simples. A vida é muito simples. Nós é que teimamos em complicar.
A verdade é estampada. Cabe a ti ser apenas franco.
E vale notar que a franqueza difere da verdade.
A verdade é impessoal, o cerne de um fato. A franqueza transcende a verdade: é um valor e define caráter.
A verdade é implícita; a franqueza, explícita.
A verdade pode ser mascarada, omitida; a franqueza não.
A franqueza é a verdade proposital, não apenas circunstancial; não espera ser inquirida, indagada ou examinada; ela é apresentada expontaneamente, crua e sem intenção.
A verdade pode acompanhar a dúvida; a franqueza é companheira apenas da certeza - seja ela qual for.
Entre a verdade e a franqueza, prefiro receber o tratamento da última. Mesmo na dor que ela eventualmente provoque, e que a simples verdade - ou sua falta - poupasse. Porque a dor da franqueza é derradeira: é o chão, e de lá se constrói o alicerce, sabendo-se que o terreno é firme.
E mesmo que ambas se anteponham à mentira, o fazem em diferentes maneiras. A verdade aceita sua convivência, eventualmente. Mas a franqueza não.
E essa mentira, que "tem pernas curtas", é um fenômeno entrópico. Muita energia é necessária para que ela sobreviva...
E toda essa energia, física e psíquica, consome. Causa pequenas frustrações que se acumulam e influenciam. Tanto para o enganado quanto para o enganador.
Toda mentira cai em contradição, eventualmente, se levada por muito tempo. E mesmo o pior dos cegos, um dia a vê.
E para ambos o enganador e o enganado, a noção consciente de se estar afastando-se de seus próprios princípios, dos valores que cada um tem a si próprio como certo e errado, leva invariavelmente ao destino da amargura.
E é claro que há mentiras inocentes: mas atribua-as grau pela tua própria consciência, pois tua consciência nunca trai
a ti mesmo, mesmo que tu queiras ter-te enganado. O teu certo e o teu errado, embora relativos aos demais, são absolutos a ti, e por conta deles é que te definirás feliz ou amargo.
Então, para quê desperdiçar tempo, fechando os olhos? Encurte-se o caminho - a franqueza é uma aliada.
Cutuque tua própria ferida. Dê a cara a tapa. Assuma teus erros. E assuma teus desencantos também.
Tão mais logo quanto o fizeres, tão mais vivo e livre serás.
Nao te contentes em ser apenas verdadeiro, mesmo que não te favoreça de imediato: sejas franco.
-- por João Otero - 25-jul-08 --
01 junho 2008
21 maio 2008
A Formiguinha e a Neve (adaptação, sem censura, por João Otero)
E a Formiguinha que prendeu o pézinho na neve, disse pra Neve:
- Óh Neve, tu que és tão forte, solta o meu pézinho?
A Neve então respondeu:
- Mais forte que eu é o Sol, que me derrete.
A formiguinha então se voltou ao Sol, e lhe pediu:
- Óh Sol, tu que és tão forte que derrete a Neve, que prende o meu pézinho, solta o meu pézinho?
Ao que o Sol respondeu:
- Mais forte que eu é o Muro, que me tapa.
Voltando-se então ao Muro, disse a formiguinha:
- Óh Muro, tu que és tão forte que tapa o Sol, que derrete a Neve, que prende o meu pézinho, solta o meu pézinho?
O Muro lhe disse então:
- Mais forte que eu é o Rato, que me fura.
A Formiguinha então implorou ao Rato:
- Óh Rato, tu que és tão forte que fura o Muro, que tapa o Sol, que derrete a Neve, que prende o meu pézinho, solta o meu pézinho?
- Mais forte que eu é o Gato - disse o Rato - que me come.
Nisso, então, a Formiguinha pediu ao Gato:
- Óh Gato, tu que és tão forte que come o Rato, que fura o Muro, que tapa o Sol, que derrete a Neve, que prende o meu pézinho, solta o meu pézinho?
O Gato, apressado, lhe respondeu:
- Mais forte que eu é o Homem, que me caça.
Vendo o Homem se aproximar, a Formiguinha num alento voltou-se ao Homem:
- Óh Homem, tu que és tão forte que caça o Gato, que come o Rato, que fura o Muro, que tapa o Sol, que derrete a Neve, que prende o meu pézinho, solta o meu pézinho?
- Ô Formiguinha... tu tanto ficou nessa lenga-lenga que não tá vendo que a neve já derreteu faz horas?
- Óh! Nem havia me apercebido! Muito obrigado, óh Homem!
- Que é isso, nem me agradece... Agradece àquele gato pederasta que come o Rato, que fura o Muro, que tapa o Sol, que derrete a Neve... Falando nisso, cadê o Gato?! Pôrra, Formiguinha...!
...E num acesso de fúria, era uma vez uma Formiguinha.
-- João Otero - 13-mai-2008 --
- Óh Neve, tu que és tão forte, solta o meu pézinho?
A Neve então respondeu:
- Mais forte que eu é o Sol, que me derrete.
A formiguinha então se voltou ao Sol, e lhe pediu:
- Óh Sol, tu que és tão forte que derrete a Neve, que prende o meu pézinho, solta o meu pézinho?
Ao que o Sol respondeu:
- Mais forte que eu é o Muro, que me tapa.
Voltando-se então ao Muro, disse a formiguinha:
- Óh Muro, tu que és tão forte que tapa o Sol, que derrete a Neve, que prende o meu pézinho, solta o meu pézinho?
O Muro lhe disse então:
- Mais forte que eu é o Rato, que me fura.
A Formiguinha então implorou ao Rato:
- Óh Rato, tu que és tão forte que fura o Muro, que tapa o Sol, que derrete a Neve, que prende o meu pézinho, solta o meu pézinho?
- Mais forte que eu é o Gato - disse o Rato - que me come.
Nisso, então, a Formiguinha pediu ao Gato:
- Óh Gato, tu que és tão forte que come o Rato, que fura o Muro, que tapa o Sol, que derrete a Neve, que prende o meu pézinho, solta o meu pézinho?
O Gato, apressado, lhe respondeu:
- Mais forte que eu é o Homem, que me caça.
Vendo o Homem se aproximar, a Formiguinha num alento voltou-se ao Homem:
- Óh Homem, tu que és tão forte que caça o Gato, que come o Rato, que fura o Muro, que tapa o Sol, que derrete a Neve, que prende o meu pézinho, solta o meu pézinho?
- Ô Formiguinha... tu tanto ficou nessa lenga-lenga que não tá vendo que a neve já derreteu faz horas?
- Óh! Nem havia me apercebido! Muito obrigado, óh Homem!
- Que é isso, nem me agradece... Agradece àquele gato pederasta que come o Rato, que fura o Muro, que tapa o Sol, que derrete a Neve... Falando nisso, cadê o Gato?! Pôrra, Formiguinha...!
...E num acesso de fúria, era uma vez uma Formiguinha.
-- João Otero - 13-mai-2008 --
07 março 2008
Estrela
Se a cada estrela que te pende ao rosto
pendesse um brilho e uma promessa
cego estaria a jurar sem pressa
como tu és linda, como te gosto
E se a cada tempo em que eu me pegasse
perdendo as horas no meu delírio
e com tua estrela cegante em brilho
o meu olhar sufocasse,
que triste a vida se eu não jurasse
que eu morria um pouquinho!
-- Joao Otero - 7-dez-2008 --
pendesse um brilho e uma promessa
cego estaria a jurar sem pressa
como tu és linda, como te gosto
E se a cada tempo em que eu me pegasse
perdendo as horas no meu delírio
e com tua estrela cegante em brilho
o meu olhar sufocasse,
que triste a vida se eu não jurasse
que eu morria um pouquinho!
-- Joao Otero - 7-dez-2008 --
pensamento: Mulher Ideal
Se a minha mulher ideal é tão perfeita...
...que diabos iria ela querer comigo?!
...que diabos iria ela querer comigo?!
26 março 2005
Sobre a Arte
Sobre a Arte
Uma definição muito precisa e simples para responder a pergunta “o que é arte?” poderia ser: “a arte é a intenção da beleza”.
Não se está, assim, avaliando-a. Apenas definindo-a.
Isso porque uma mesma “arte” – ou em melhores termos, uma mesma “obra-de-arte” – que é a sua forma de expressão – pode ser avaliada por diferentes paladares, de diferentes apreciadores.
Note-se aqui outro ponto importante: a “arte” é tão só a intenção! Se alguém apenas tentar, por mais que não tenha conseguido, realizar a beleza: isso é arte. Até porque a “beleza” é uma noção subjetiva, e pode variar de um a outro observador.
E mais, a arte não é a “obra”. Essa última constitui-se apenas no meio pela qual a arte – a intenção da beleza – torna-se expressa, aparente, perceptível. No entanto, a arte está apenas na intenção.
E antes que levantem-se críticas quanto a noção de “beleza”, consideremos aqui uma noção ampla em que se trate tão somente de um sinônimo para a “busca pela emoção”, ou "somatização de alguma emoção" – incluindo portanto a "feiura", a "surpresa" e outras tantas emoções.
A “arte” pode aparecer em tudo, com maior ou menor intensidade. Da mesma forma, uma “obra-de-arte” também é composta por arte, mas não apenas dela... Uma obra-de-arte pode conter outros elementos adicionais à arte. Explica-se:
Pode haver arte numa fórmula matemática, onde esforçadamente o matemático tenha buscado uma solução elegante a um problema – ele intencionalmente buscou beleza na sua solução.
Pode haver arte na obra-de-arte também (aliás, é onde mais se espera encontrá-la!). Mas na obra-de-arte também pode haver filosofia, quando se toca um tema polêmico, por exemplo. Numa obra-de-arte também pode haver ciência e técnica: um prédio arquitetônico pode possuir beleza artística (intencional), mas também possui uma organização funcional, e é projetado técnicamente. A fórmula matemática citada anteriormente também demonstra uma parcela de técnica – afinal, é matemática! ...Apenas que, talvez, a componente técnica na fórmula matemática possa ser muito mais relevante para a obra matemática que a sua componente artística. Da mesma forma que se espera que a componente artística de uma “obra-de-arte” seja muito mais relevante que qualquer outra das suas possíveis componentes.
O importante é notar que qualquer “obra” genérica – artísitica ou não – possui diversas “componentes”, sejam elas componentes técnicas, filosóficas, inovativas, de beleza, etc... e até mesmo artísticas (se a beleza for intencional)!
Nesse contexto, uma “obra-de-arte” é tão só "a" das obras que intenciona uma maior ênfase na componente artística – mas não que se desfaça das suas demais componentes.
Outro ponto de vista a detalhar é no que toca à “intenção”. Há diversas coisas “belas” no mundo, embora nem todas sejam intencionais. Uma flor pode ser bela, mas não é “arte” – ninguém propositadamente a fez, ela surgiu naturalmente. Uma “mancha” pode ser bela, mas não intencional, e sendo obra do acaso, não é arte. Entretanto a mesma “mancha” pode ser não tão bela assim, mas intencionalmente realizada por um artista – e dessa forma, já que houve a intenção, é arte sim, ainda embora a beleza possa não ter sido tão bem alcançada.
A arte é proposital.
Então, qualquer obra genérica possui diversas “componentes”. Inclusive “beleza”. Em maior ou menor grau. No entanto, a beleza por si só não é arte. A arte é a beleza propositadamente almejada. Relembrando, por cuidado: beleza no contexto que aqui se utiliza não significa necessariamente ser “bonito”, pode ser uma “feiura” intencional também, que é válida – desde que a feiura seja intencional, e não obra da incapacidade do artista, ou do acaso; a beleza aqui é a busca da somatização de uma emoção qualquer.
Logo, do conjunto de todas as obras, na qual se incluem as obras naturais e os acasos também, apenas o subconjunto das obras intencionais contém as obras capazes de possuir uma componente “artística”.
Assim sendo, pode-se agora tentar avaliar as “artes” e também as “obras-de-arte” – que são entre si noções muito distintas. Mesmo que a idéia de “avaliação” possua uma subjetividade implícita e fundamental, ainda assim, com as definições claras de “arte” e “obra-de-arte”, é possível aplicá-la.
Como é subjetiva, pode ser que a avaliação não seja aplicada de maneira uniforme e igualitária por todos os observadores, mas pode ser definida e fundamentada – na medida em que, ainda que os avaliadores discordem das “graus”, concordem nos conceitos e métodos de avaliação.
Ao se avaliar exclusivamente a “arte”, o avaliador deve buscar em sua própria subjetividade o quão “bela” a obra lhe parece, além de cuidar para perceber se essa beleza possui sua intenção de ser. Diferentes avaliadores discordarão quanto aos graus de beleza atribuídos. No entanto, arte é tão somente isso: havendo uma intenção de beleza, quão profundamente essa beleza toca o seu apreciador? E quão mais "bela" essa intenção parecer ao observador, tão mais notável e poderosa é essa arte!
Dessa forma um orginal de Michelangelo pode não diferir muito, artisticamente, de uma cópia barata em um pôster. Essas duas “obras” sim (o original e o pôster), diferem – no sentido de que a obra de Michelangelo foi apenas uma só, e possui, senão outros componentes, ao menos os componentes da originalidade, do valor histórico, da exclusividade e da antigüidade – que não existem no pôster. Mas no componente artístico são iguais – afinal um é cópia do outro. Talvez não sejam tão iguais, já que a qualidade do papel pode influir na noção de beleza percebida pelo observador – e nesse sentido é capaz de o pôster ser considerado até mesmo mais belo que o original..! Os componentes de originalidade, valor histórico, exlusividade e outros, são os que atribuem à obra original um maior valor que ao pôster (por exemplo, os pôsters não são nada exclusivos!). Mas atribuem valor diferente à obra, não à arte, já que em ambos os casos a arte é a mesma.
E assim, compreendendo-se esses conceitos, pode-se avaliar a obra-de-arte. Pode haver nas obras-de-arte diversas componentes além da artística: em Guernica, de Picasso, há uma forte componente chocante e filosófica, introspectiva, polêmica (ela fala sobre as atrocidades da guerra!). No entando, é de mesma intensidade bela, para a maioria das pessoas. Um criança que desconhece a história não irá compreender essa componente filosófica – mas irá compreender a beleza! Há arte de qualidade em Picasso. Embora a técnica de Picasso possa ter sido copiada, suas obras possuem a componente de originalidade – que os copiadores, por definição, não possuem. E assim, suas obras possuem um valor histórico maior. Mas não necessariamente pela beleza artística, ainda que na maioria dos casos. Pode muito bem haver copiadores de sua técnica que possuam obras menos valiosas, mas de componente artístico muito maior... Basta que essa obra pareça aos olhos do observador mais bela que as obras de Picasso! E assim, teoricamente, pode-se ter ao mesmo tempo uma obra com menos valor, mas com força artística muito maior que a obra valiosa.
A arte toca a resposta imediata do cérebro, emocional, que julga em sentido binário (bom/ruim). A instrospecção, ainda que possa estar no escopo da obra-de-arte, foge ao escopo da arte em si. A introspecção é racional, filosófica.
E aí se chega ao ponto: na intenção de romper padrões - de chamar a atenção, de chocar - muitas das obras de arte modernas e contemporâneas possuem fortes componentes de inovacionismo e filosofia – mas muito pouco componente de beleza. E menos ainda de componente artístico – que é quando a beleza existente é intencional. Muitas das obras de arte modernas devem sua beleza ao acaso – o que não é uma beleza artística. E muitas das obras-de-arte modernas tem em seu foco uma intenção introspectiva, e não uma intenção emocional.
Tem-se dado pouquíssima ênfase no componente artístico de certas obras, e muito mais ênfase nas demais componentes...
Poderiam citar Pollock, e dizer que seus respingos utilizam o acaso. É verdade. No entando, o "acaso", neste caso, foi utilizado de uma forma proposital, com a intenção de se buscar a beleza – e tão somente ela – e possui portanto um componente artístico muito grande.
A arte pode ser simples. Basta ser bela e intencional. As grandes obras-de-arte são além de tudo algumas vezes complexas, inovadoras, etc (que é o que diferencia as capacidades dos gênios das capacidades das pessoas mais comuns), e são valiosas e exclusivas por esses sentidos. Mas ao se considerar a arte, aprecie-a restritamente. Aprecie a arte, e não a obra. Embora "avalie" a obra, e não a arte.
Para a arte, não importa se é uma cópia, se uma criança ou um artista sem renome a traduziu em obra, ou se não possui um “significado”... Só importa se é "bela", e que foi essa a intenção de alguém.
As obras também são importantes, mas por outros sentidos. A arte é muito mais universal e simples do que as obras.
Em geral, ultimamente temos sofrido uma invasão de “obras-de-arte filosóficas”, mas de componente artísitico muito fraco. Se a obra é “de-arte”, a arte deveria ser o seu componente de maior importância. ...Ou então que se chame de “obra-de-filosofia” – pois os filósofos bem podem trocar sua usual forma de expressão, comumente um livro, por uma escultura ou uma tela (esculturas e telas não são propriedades exclusivas de artistas!).
Nada impede que um artísta tenha um papel social ou que seja também um filósofo. Mas essas são áreas diferentes. Mesmo que queira filosofar, é bom que o artista, quando em seu papel de artista, não se esqueça de fazer arte.
-- João Otero – 26-mar-2005 --
Uma definição muito precisa e simples para responder a pergunta “o que é arte?” poderia ser: “a arte é a intenção da beleza”.
Não se está, assim, avaliando-a. Apenas definindo-a.
Isso porque uma mesma “arte” – ou em melhores termos, uma mesma “obra-de-arte” – que é a sua forma de expressão – pode ser avaliada por diferentes paladares, de diferentes apreciadores.
Note-se aqui outro ponto importante: a “arte” é tão só a intenção! Se alguém apenas tentar, por mais que não tenha conseguido, realizar a beleza: isso é arte. Até porque a “beleza” é uma noção subjetiva, e pode variar de um a outro observador.
E mais, a arte não é a “obra”. Essa última constitui-se apenas no meio pela qual a arte – a intenção da beleza – torna-se expressa, aparente, perceptível. No entanto, a arte está apenas na intenção.
E antes que levantem-se críticas quanto a noção de “beleza”, consideremos aqui uma noção ampla em que se trate tão somente de um sinônimo para a “busca pela emoção”, ou "somatização de alguma emoção" – incluindo portanto a "feiura", a "surpresa" e outras tantas emoções.
A “arte” pode aparecer em tudo, com maior ou menor intensidade. Da mesma forma, uma “obra-de-arte” também é composta por arte, mas não apenas dela... Uma obra-de-arte pode conter outros elementos adicionais à arte. Explica-se:
Pode haver arte numa fórmula matemática, onde esforçadamente o matemático tenha buscado uma solução elegante a um problema – ele intencionalmente buscou beleza na sua solução.
Pode haver arte na obra-de-arte também (aliás, é onde mais se espera encontrá-la!). Mas na obra-de-arte também pode haver filosofia, quando se toca um tema polêmico, por exemplo. Numa obra-de-arte também pode haver ciência e técnica: um prédio arquitetônico pode possuir beleza artística (intencional), mas também possui uma organização funcional, e é projetado técnicamente. A fórmula matemática citada anteriormente também demonstra uma parcela de técnica – afinal, é matemática! ...Apenas que, talvez, a componente técnica na fórmula matemática possa ser muito mais relevante para a obra matemática que a sua componente artística. Da mesma forma que se espera que a componente artística de uma “obra-de-arte” seja muito mais relevante que qualquer outra das suas possíveis componentes.
O importante é notar que qualquer “obra” genérica – artísitica ou não – possui diversas “componentes”, sejam elas componentes técnicas, filosóficas, inovativas, de beleza, etc... e até mesmo artísticas (se a beleza for intencional)!
Nesse contexto, uma “obra-de-arte” é tão só "a" das obras que intenciona uma maior ênfase na componente artística – mas não que se desfaça das suas demais componentes.
Outro ponto de vista a detalhar é no que toca à “intenção”. Há diversas coisas “belas” no mundo, embora nem todas sejam intencionais. Uma flor pode ser bela, mas não é “arte” – ninguém propositadamente a fez, ela surgiu naturalmente. Uma “mancha” pode ser bela, mas não intencional, e sendo obra do acaso, não é arte. Entretanto a mesma “mancha” pode ser não tão bela assim, mas intencionalmente realizada por um artista – e dessa forma, já que houve a intenção, é arte sim, ainda embora a beleza possa não ter sido tão bem alcançada.
A arte é proposital.
Então, qualquer obra genérica possui diversas “componentes”. Inclusive “beleza”. Em maior ou menor grau. No entanto, a beleza por si só não é arte. A arte é a beleza propositadamente almejada. Relembrando, por cuidado: beleza no contexto que aqui se utiliza não significa necessariamente ser “bonito”, pode ser uma “feiura” intencional também, que é válida – desde que a feiura seja intencional, e não obra da incapacidade do artista, ou do acaso; a beleza aqui é a busca da somatização de uma emoção qualquer.
Logo, do conjunto de todas as obras, na qual se incluem as obras naturais e os acasos também, apenas o subconjunto das obras intencionais contém as obras capazes de possuir uma componente “artística”.
Assim sendo, pode-se agora tentar avaliar as “artes” e também as “obras-de-arte” – que são entre si noções muito distintas. Mesmo que a idéia de “avaliação” possua uma subjetividade implícita e fundamental, ainda assim, com as definições claras de “arte” e “obra-de-arte”, é possível aplicá-la.
Como é subjetiva, pode ser que a avaliação não seja aplicada de maneira uniforme e igualitária por todos os observadores, mas pode ser definida e fundamentada – na medida em que, ainda que os avaliadores discordem das “graus”, concordem nos conceitos e métodos de avaliação.
Ao se avaliar exclusivamente a “arte”, o avaliador deve buscar em sua própria subjetividade o quão “bela” a obra lhe parece, além de cuidar para perceber se essa beleza possui sua intenção de ser. Diferentes avaliadores discordarão quanto aos graus de beleza atribuídos. No entanto, arte é tão somente isso: havendo uma intenção de beleza, quão profundamente essa beleza toca o seu apreciador? E quão mais "bela" essa intenção parecer ao observador, tão mais notável e poderosa é essa arte!
Dessa forma um orginal de Michelangelo pode não diferir muito, artisticamente, de uma cópia barata em um pôster. Essas duas “obras” sim (o original e o pôster), diferem – no sentido de que a obra de Michelangelo foi apenas uma só, e possui, senão outros componentes, ao menos os componentes da originalidade, do valor histórico, da exclusividade e da antigüidade – que não existem no pôster. Mas no componente artístico são iguais – afinal um é cópia do outro. Talvez não sejam tão iguais, já que a qualidade do papel pode influir na noção de beleza percebida pelo observador – e nesse sentido é capaz de o pôster ser considerado até mesmo mais belo que o original..! Os componentes de originalidade, valor histórico, exlusividade e outros, são os que atribuem à obra original um maior valor que ao pôster (por exemplo, os pôsters não são nada exclusivos!). Mas atribuem valor diferente à obra, não à arte, já que em ambos os casos a arte é a mesma.
E assim, compreendendo-se esses conceitos, pode-se avaliar a obra-de-arte. Pode haver nas obras-de-arte diversas componentes além da artística: em Guernica, de Picasso, há uma forte componente chocante e filosófica, introspectiva, polêmica (ela fala sobre as atrocidades da guerra!). No entando, é de mesma intensidade bela, para a maioria das pessoas. Um criança que desconhece a história não irá compreender essa componente filosófica – mas irá compreender a beleza! Há arte de qualidade em Picasso. Embora a técnica de Picasso possa ter sido copiada, suas obras possuem a componente de originalidade – que os copiadores, por definição, não possuem. E assim, suas obras possuem um valor histórico maior. Mas não necessariamente pela beleza artística, ainda que na maioria dos casos. Pode muito bem haver copiadores de sua técnica que possuam obras menos valiosas, mas de componente artístico muito maior... Basta que essa obra pareça aos olhos do observador mais bela que as obras de Picasso! E assim, teoricamente, pode-se ter ao mesmo tempo uma obra com menos valor, mas com força artística muito maior que a obra valiosa.
A arte toca a resposta imediata do cérebro, emocional, que julga em sentido binário (bom/ruim). A instrospecção, ainda que possa estar no escopo da obra-de-arte, foge ao escopo da arte em si. A introspecção é racional, filosófica.
E aí se chega ao ponto: na intenção de romper padrões - de chamar a atenção, de chocar - muitas das obras de arte modernas e contemporâneas possuem fortes componentes de inovacionismo e filosofia – mas muito pouco componente de beleza. E menos ainda de componente artístico – que é quando a beleza existente é intencional. Muitas das obras de arte modernas devem sua beleza ao acaso – o que não é uma beleza artística. E muitas das obras-de-arte modernas tem em seu foco uma intenção introspectiva, e não uma intenção emocional.
Tem-se dado pouquíssima ênfase no componente artístico de certas obras, e muito mais ênfase nas demais componentes...
Poderiam citar Pollock, e dizer que seus respingos utilizam o acaso. É verdade. No entando, o "acaso", neste caso, foi utilizado de uma forma proposital, com a intenção de se buscar a beleza – e tão somente ela – e possui portanto um componente artístico muito grande.
A arte pode ser simples. Basta ser bela e intencional. As grandes obras-de-arte são além de tudo algumas vezes complexas, inovadoras, etc (que é o que diferencia as capacidades dos gênios das capacidades das pessoas mais comuns), e são valiosas e exclusivas por esses sentidos. Mas ao se considerar a arte, aprecie-a restritamente. Aprecie a arte, e não a obra. Embora "avalie" a obra, e não a arte.
Para a arte, não importa se é uma cópia, se uma criança ou um artista sem renome a traduziu em obra, ou se não possui um “significado”... Só importa se é "bela", e que foi essa a intenção de alguém.
As obras também são importantes, mas por outros sentidos. A arte é muito mais universal e simples do que as obras.
Em geral, ultimamente temos sofrido uma invasão de “obras-de-arte filosóficas”, mas de componente artísitico muito fraco. Se a obra é “de-arte”, a arte deveria ser o seu componente de maior importância. ...Ou então que se chame de “obra-de-filosofia” – pois os filósofos bem podem trocar sua usual forma de expressão, comumente um livro, por uma escultura ou uma tela (esculturas e telas não são propriedades exclusivas de artistas!).
Nada impede que um artísta tenha um papel social ou que seja também um filósofo. Mas essas são áreas diferentes. Mesmo que queira filosofar, é bom que o artista, quando em seu papel de artista, não se esqueça de fazer arte.
-- João Otero – 26-mar-2005 --
28 outubro 2004
Grito Mudo
Há um suspiro no sufoco
mudo, fundo, rouco
em queda infinda
E a minha voz ainda
morta, tosca, grossa
nesta profunda fossa
neste meu peito oco
E não há som que possa
abafar meu guizo
baixo, leve, limpo
daquele som que enrosca
entre o silêncio e o grito
no mais privado abismo
-- João Otero - 28-out-2004 --
mudo, fundo, rouco
em queda infinda
E a minha voz ainda
morta, tosca, grossa
nesta profunda fossa
neste meu peito oco
E não há som que possa
abafar meu guizo
baixo, leve, limpo
daquele som que enrosca
entre o silêncio e o grito
no mais privado abismo
-- João Otero - 28-out-2004 --
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