03 maio 2014

Folhas - Parte 3





O olhar gripado. Contraponto ao influxo de ar gelado que adentrava as narinas. Ao agrado gelado do vento cortante no rosto. Agrado porque se percebia vivo. Percorria suas veias todo aquele frio como se fosse vida, como se fosse ânimo. Os raios de sol, anúncios de boa sorte, promessas de um bom dia. E o tempo não se expandia mais além. Ficava ali, confinado entre o branco amanhecer e amarelando-se até o pôr-do-sol alaranjado.
Gripado o olhar porque quase gotejava uma lágrima. Avermelhava um pouquinho o contorno dos olhos. Quase soluçava, meio febril. Quase doente. Mas febril de uma doença boa. Febril da paixão que estufa o peito ao ver a mochila dela guardando lugar na fila ali no pátio do colégio - e bem ao lado da sua!
Naquele tempo, um dia tinha o tamanho das cartas, e era o tamanho de toda a vida. 
Não lembrava se isso foi antes ou depois das trocas de bilhetes sinceros que cruzavam a sala tensos de mão-em-mão até o desabrochar de um sorriso a apenas confirmar o que todos já sabiam.
Mas pouco importava. Naquele dia, percorreriam lado a lado o caminho do pátio até a sala de aula. E aos 7 anos de idade, isso era o triunfo de um dia.

(continua...)





— João Otero - 3-mai-2014 —

02 maio 2014

Folhas - Parte 2





O olhar eriçado. Como um gato surpreendido. Pois antes que regressasse ao veranico, pousou desavisado ali numa lembrança furtiva de infância. Daquelas que se revelam como novidades, a pouco quase esquecidas naqueles cantos que não se remexe. O olhar bateu na folha seca, e a folha virou blue… 
Tinha agora ali frente a seus olhos o mesmo papel de carta azul das primeiras rimas, endereçadas a um aniversário. Mas queriam dizer mais que parabéns - ela sempre soube. E eram parabéns, entretanto, embora não dissessem em momento algum. Eram, para quem lesse, nada além de cavernas encantadas e dragões e rimas bobas e insignificâncias. Mas eram rimas com cheiro. Num papel azul amassado, que embrulhou também bichinhos de porcelana. E como a porcelana marcou o papel-de-carta, a carta fez uma marca no tempo. Foi o primeiro tempo, o da coragem de dizer, sem revelar. O de saber-se o que não foi dito. O da certeza absoluta sem nenhuma evidência além da crença pura. Ela sabia. E para a carta, bastava. 
As cartas nunca se preocuparam com a efemeridade do tempo…

(continua…)






— João Otero - 2-mai-2014 —

30 abril 2014

Folhas - Parte 1





O olhar ouriçado. Quase que se acendia tal duas luas-cheias estampadas no rosto maravilhado,
fazendo ciúmes às estrelas que, enquanto crescia o olhar, iam se apagando e sumindo no céu...
As luzes de todos os lados parece que se ajuntavam mirando num ponto só.
E mais brilhante que a esperança daquele olhar, só ela - aqueles doces fios dourados, suspensos no tempo e iluminados pelo foco de atenção irradiante do menino.
Quem passasse por ali e se atrevesse a lançar atenção àquele olhar estático perdido no nada vazio daquela calçada enfolharada, nada compreenderia daquela cena noturna de outono. Não perceberia que era cena de veranico ensolarado. Não enxergaria o calor das duas mãos unidas daqueles anos atrás que não estavam mais ali.
Tampouco enxergaria o menino.
Veriam um velho. Um sorriso semi-aberto. Uma curiosidade passageira. E seguiriam seu caminho sem dispender muito tempo nem compreender coisa alguma.
Talvez pisassem nas folhas secas da calçada sem nem notar as outras que redemoinhavam ao lado.
O redomoinho de folhas secas iluminado de olhar saudoso de um menino ainda vivo naquele peito tão velho.
Foi naquele veranico...

(continua...)




-- João Otero - 30-abr-2014 --

29 abril 2014

Sonolentitudes




Sonolentitudes quando acordormi...




-- João Otero - 29-abr-2014 --

27 abril 2014

Em família


O a e o i, juntos, num suspiro desvelado
(a falsa dor duma gata no cio,  o ardor e o parto - e algo nascia)

E todas elas a, i, e e o em família,
Entremeadas na multidão que avançava a paus e pedras

E lá atrás, em meio a elas, vinha o u carregado
(e quem lhe dava a mão, lhe encorajava: não trema!)

E o a e o o, tinham o mesmo til

(...essas vogais são cheias de parênteses)


-- João Otero - 27-abr-2014 --

Sósias



                                               Sapeca, serelepe... sonhadora
                                                    Sabia sorver solitude

                                          Somatizava sorrisos salgados
                                                    Sob as mil sósias 
                                                                           de si


                                                                             Veja outros poemas da coleção Letras

                                                                             -- João Otero - 27-abr-2014 --



15 abril 2014

Nada como pizza grátis!
...Quer dizer, como. Muito.

12 abril 2014

Lembre-se de que você mesmo é o melhor secretário de sua tarefa, o mais eficiente propagandista de seus ideais, a mais clara demonstração de seus princípios, o mais alto padrão do ensino superior que seu espírito abraça e a mensagem viva das elevadas noções que você transmite aos outros. Não se esqueça, igualmente, de que o maior inimigo de suas realizações mais nobres, a completa ou incompleta negação do idealismo sublime que você apregoa, a nota discordante da sinfonia do bem que pretende executar, o arquiteto de suas aflições e o destruidor de suas oportunidades de elevação - é você mesmo.
Francisco Cândido Xavier

07 abril 2014





Mais uma dobrinha...
Disse o olho à vida, silencioso
Enquanto aprendia a contar o tempo



-- João Otero - 7-abr-2014 --

06 abril 2014




Eu quero, do meu amor, que nunca deixe-me de ser 
um tiquinho de ilusório; de exageradamente terno...
E que esse nunca seja tão constante e eterno
Que torne em mim o que há de mais real
em belo



-- João Otero - 6-abr-2014 --

05 abril 2014




Uma resposta imediata, curta e compreensível: 
Pressa.

Se satisfatória é um atributo desejado, então escolha apenas 2 dentre os outros 3 atributos iniciais.


-- João Otero - 5-abr-2014 --

A Camisa


No fim, a vida adulta não muda muito da infância: o desafio é chegar-se ao final do dia ainda limpo.
Até dá pra sujar o rosto, levar uns tombos, sujar as mãos. Mas a camisa tem que estar limpa. Manter a camisa limpa é vencer.
Na infância, suja-se de comida. Na vida adulta, são nossos valores, nossa consciência.
O sapato até pode ficar sujo de lama, pois afinal às vezes é difícil cuidar-se onde pisa (agora que há tantos anos já aprendemos a olhar sempre pra frente...). 
Mas ao final do dia, o desafio continua sendo manter a camisa limpa. A camisa tem que estar limpa.



-- João Otero - 5-abr-2014 - ao som de Lorde, Lollapalooza Brasil --

04 abril 2014




Dê dois parênteses a um poeta e ele desvia o fluxo dum rio (ah!, o amor...).


-- João Otero - 4-abr-2014 --

02 abril 2014

Provérbio






                           Cada um sofre com a enxada que tem...








-- João Otero - 2-abr-2014 --

O fusca azul





O fusca azul da parede da revistaria
até parece que chorava ser nostalgia...

Acho que foram as lágrimas
que me chamaram atenção.

...Algumas lágrimas até nos deixam mais bonitos.


-- João Otero - 2-abr-2014 --

01 abril 2014

Quando a vida acontece



A vida acontece no passeio entre o viaduto e o caminho da rua das flores

A vida desacontece na traseira do caminhão-de-lixo ao dobrar-se a esquina

A vida acontece na gota de café que respinga em forma de um coração

A vida desacontece com a garçonete limpando a mesa

A vida acontece com o sorriso que escapou do teu rosto e abriu o sol

A vida desacontece num sinal mal-interpretado, numa tempestade, 
num copo d'água, 
num tchau,
Nas costas viradas, de repente, por nada, sem entender-se o porquê
Na poça d'água que não era pra estar ali
No bonde que atrasou,
No olhar que não viu,
No pensamento que jamais soube que era correspondido


A vida desacontece é quando a deixamos acontecer



-- João Otero - 1-abr-2014 --


Bruto





O bruto lapidar que aflora o brilho

Translúcido - de opaco, flácido, absorto

E ao lapidar, o caco e o joelho torto

E o estribilho em ritornelo na beleza que labuto...

Ao retinir da pedra percebo que é fajuto

Um sonho que se leva a vida desfiando




-- João Otero - 1-abr-2014 --


Minha infância foi tão boa!
Tão boa...

Maldita infância.
Que contrapeso de vida.

-- João Otero - 1-abr-2014 --
É com olhos, não com a mão, que se escreve poesia
Escrever é perseguir o olhar à maestria
Só que ouvidos, línguas, mãos,
narizes e coração, têm olhos também!
Só não vêem os que não vêem.

-- João Otero - 1-abr-2014 --
Ufa! Salvei o dia.
Fiz uma piada.

-- João Otero - 1-abr-2014 --

31 março 2014

Linhas




                          Breve e ligeira
                             passeava furtiva a linha
                             entrelaçada na minha
                             outra linha bem mais grave

                        Eram riscas de saudade
                            enovelando suaves
                                   a minha tarde





— João Otero - 31-mar-2014 —



               Meu coração saiu
               limpar o c…
               (da merda que fez).
                              
Transcendeu à oração.
               
               Graças! - houvera de ter
               alguma pureza
               ainda guardada.





— João Otero - 31-mar-2014 —

30 março 2014

Quisera ser dígrafo




                                           quisera ser dígrafo,
                                           cumplicência, ressonância,
                                                                   daltonismo

                                           mas teve a vida em dois peitos,
                                           na variância osciloscópica
                                                 da arritmia

                                            morrera de anacronismo





— João Otero - 30-mar-2014 —

29 março 2014

Vaga




                                        e vendo minguar o farol
                                 que balançava lá atrás


                        alentou a quem soubesse, 
                              deste amor, aonde mirar?


                                     se viu só,
                                         sem quem dissesse…


                                não mais que o barco, da proa
                                        não mais que o casco, do mar




— João Otero - 30-mar-2014 —

Das Coisas Como Elas São





Dor e amor
Labuta e puta

Êta rimas mais batidas!

          Mas não são rimas, são fatos
          Quem lhes rimou foram as vidas…



-- João Otero - 29-mar-2014 --

27 março 2014

Crônicas Tecnológicas II


Felipe e Pedro eram irmãos. Certo dia, Pedro sofreu um grave acidente e foi levado às pressas ao hospital. Por sorte, seu sistema de backups não foi afetado e a equipe médica pôde reconstituir o modelo lógico de seu cérebro átomo a átomo, tal qual momentos antes do acidente. 

Uma pequena parte do cérebro foi substituída por uma prótese artificial, mas que obedecia às mesmas funções lógicas, e que foi resetada ao mesmo estado funcional anterior do cérebro então danificado.  Avanço na medicina - era a primeira vez que tal procedimento tinha sido concluído com êxito absoluto!

Testes confirmaram que o funcionamento mental de Pedro não foi afetado em parte alguma. Não houve perda motora, não houve perda alguma de memória, não houve influência no seu funcionamento lógico - ou seja, nem mesmo a introdução de novas memórias fictícias, ou uma influência em suas percepções sensoriais, e nem mesmo alteração alguma na forma como Pedro sentia suas emoções.

Em suma, Pedro era o mesmíssimo mesmo Pedro de sempre.

Anos adiante, Pedro sofreu novamente da mesma má sorte. Desta vez um pedaço bem maior de seu cérebro foi danificado. Morte cerebral instantânea. 

Mas por um pouco de boa sorte (que tudo na vida vem de um jeito equilibrado), a mesma equipe médica, melhor do mundo naquela especialidade, conseguiu acessar os dados de backup de Pedro junto ao seu exame de ressonância mais recente e foi capaz de reconstruir artificialmente um cérebro inteiro, novinho em folha - que funcionava tal qual o cérebro carbônico anterior. 

O procedimento cirúrgico foi rápido e Pedro voltou para casa normalmente ao final do dia, assim como qualquer um desses ressucitados que abundam cotidianamente pelos hospitais do mundo todo…

Assim como da primeira vez, testes confirmaram que os traços de memória, personalidade, caráter, regras de decisão, empatia e emoção continuavam os mesmos do Pedro original. Mas desta vez, o cérebro de Pedro era 100% máquina. Entretando, pensava como Pedro, tinha as memórias de Pedro, se emocionava como Pedro, comandava inclusive o corpo de Pedro. Ou seja, “era”, de fato, ainda, Pedro.

Pedro foi um desses casos raríssimos que participou de forma crucial em 2 dos avanços científicos mais significativos da ciência humana.

Com o novo cérebro artificial, Pedro tornou-se o primeiro humano a ultrapassar o ducentésimo aniversário (visto que os demais órgãos sempre foram muito mais fáceis de manter e consertar, já há muitas décadas). 

Através de Pedro, psicólogos e pesquisadores de todo o mundo puderam analisar efeitos emocionais até então desconhecidos na história do homem: Pedro viu mais gerações de familiares partirem desta para melhor do que qualquer outro humano vivo até então.

O cérebro de Pedro tornou-se tão importante para as pesquisas que de fato foi replicado 214 vezes, sob encomenda e com seu pleno aceite e autorização, e empregado como voluntário em institutos de pesquisa ao redor do mundo, contido em corpos artificiais. 

A partir do momento de sua concepção, tais Pedros passaram a se comportar com pequenas variações e distinções entre si, razão da influência de diferentes dados sensoriais e experiências de vida às quais foram submetidos. Mas até o momento de sua concepção, todos os 214 Pedros possuíam a mesma memória de 200 e poucos anos. Todos se consideravam vivos à muito tempo, lembravam das mesmas coisas, tinham os mesmos preceitos morais, os mesmos laços afetivos. 

Era apenas como que instantaneamente pudessem tomar 214 caminhos simultâneos. Visitar 214 lugares diferentes ao mesmo tempo. Interagir com 214 pessoas em diferentes locais do mundo, na mesma hora. A partir de sua concepção, tornaram-se 214 vidas independentes. Mas todos eles com 200 e poucos anos de memória e experiências identicamente comuns entre eles.

A “mente” afinal, aprendeu-se enfim, não tem relação alguma com o corpo. Nem com o cérebro. Nem mesmo com o “ser” - levou algumas décadas, mas finalmente todos agora compreendiam! A mente é tão só um processo lógico, que pode “viver” e ser replicada em qualquer substrato que respeite as mesmas regras lógicas seguidas pela mente original - ou impostas pelo cérebro original.

De fato, recentemente os garotos do colégio Emmanuel lá de Jericoacoara (com a ajuda de seus personal bots, obviamente) replicaram 3 segundos das memória de Felipe numa cadeia de dominós no que possivelmente virá a se tornar a maior cadeia de dominós do mundo - ainda a ser confirmada pelo Guinness Book, que está verificando se de fato todos os dominós caíram.

Diz-se que Felipe-versão-dominó morreu feliz. Algumas pessoas ainda não conseguem aceitar esse conceito… - só um breve comentário.

Mas, veja, esse nem é o grande problema. O que tornou-se complicado mesmo foi concluir se Felipe, então irmão de Pedro, foi ou não a primeira pessoa do mundo a ter 215 irmãos. 

Ou se apenas os 214 Pedros-gêmeos é que tinham um único e mesmo irmão, Felipe - já que tecnicamente os Pedros-gêmeos não eram bem gêmeos, e sim a “mesma” pessoa, com múltiplas existências. 

Esse problema ainda é debate acirrado em mesas de bar até hoje, e abalou algumas estruturas sociais profundamente: foi aquele o dia em que o conceito de “irmandade” tornou-se unidirecional? Mas, e pode isso?!



Veja outras Crônicas Tecnológicas e outros textos.

— João Otero - 27-mar-2014 —

"Um objetivo sem um plano é apenas um sonho."
-- Antoine de Saint-Exupéry --


24 março 2014




já-perdi-a-conta devia ser um número. Talvez assim como enésimo, trocentos... E todos esses números indescritíveis e úteis. Assim como o zero, que teve que ser inventado, pra dizer que acabou-se.
Assim como o infinito, que não passa de um oito caído - acho que o zero dura mais...
Eu acho que já-perdi-a-conta devia ser um número.

23 março 2014

Da vida em parcelas




Se funcionasse,
ah se funcionasse, 
os limites do dia

Se funcionasse os limites do dia
haveriam fases, recomeços
- esperança de alegria

Mas nunca soube do dia 
o problema que assovia
dentre as parcelas de vida
e se acomprida, azedo

E quando a vela apaga,
e quando a luz expira,
esse dia que se acaba 
não limita o nosso medo


-- João Otero - 23-mar-2014 --







                                       Viver é prestar atenção.










22 março 2014

Descompasso




…há um descompasso 
neste ritmo de viver


eu num istmo entre a inércia e um passo
vejo o peito em pulso do passado
tocar o meu futuro um pouco sem saber

e este corpo, dança meio parado uma nota sem estrofe
(encaro um presente ainda embrulhado)


e o meu fôlego sofre

          sofre o meu fôlego...


— João Otero - 22-mar-2014 - nova versão —










há um descompasso
no meu ritmo de viver
meu coração pulsa no passado
minha cabeça toca no futuro
e meu corpo aqui parado em frente
a um presente
ainda embrulhado
e o meu fôlego sofre
sofre o meu fôlego...

-- João Otero - 25-nov-2013  - versão original --

12 março 2014

Recorrência



           a
           i 
           c
           n           R
       R e c o r r  e n c i a
           r            c
           r            o
           o           r
           c            r
 a i c n e r r o c e R
           R          n
                        c
                        i
                        a  
         


              a              R 
              i               e  
       R e c o r r ê n c i a
              n              o
              ê               r
              r               r
              r               ê
              i               n
         a i c n ê r r o c e R
              e              i  
              R             a


           a
           i 
           c
           n            R
       R e c o r r  e n c i a
           r             c
           r             o
           o            r
           c            r
a i c n e r  r  o c e             R
                         n              e
           R e         c o r r ê n c i a
                     n   i              o
                     ê   a              r
                     r                   r 
                     r                   ê
                     o                  n
                a i c  n  ê r  r  o c e R
                     e                  i
                     R  :              a     sua    c o m p a n h i a



-- João Otero - 12-mar-2014 --

10 março 2014

Uma linha: poema com preguicinha.

-- João Otero - 10-mar-2014 --

QueBrado




                      q u e b r a d  O
    o                               ã
C             r             ç                 
   q u e         b r a d o !





-- João Otero - 10-mar-2014 --





Rima

Amor e dor
A dois
na gente
Rima
inconveniente

-- João Otero - 10-mar-2014 --

09 março 2014

Vida




A vida

A vinda
Àqui





-- João Otero - 9-mar-2014 --








de pouco        
    em pouco      

           poucou-se




-- João Otero - 9-mar-2014 --

08 março 2014

AmoMovo

Acidente de percurso,
Cafuné na vida:
Feliz Ano Novo!
Feliz Amo Novo!
Feliz Ano Movo.
Feliz! Amo. Movo.

-- João Otero - 8-mar-2014 --

07 março 2014

Bemol

Tocava sempre a mesma nota triste
Da alegria, fresta; alpiste

Volta-e-meia e toca a mesma nota ainda

(Nunca vi alguém gostar tanto de ir doendo a vida...)

-- João Otero - 7-mar-2014 --
"Começa numa jaca... e vai até caqui."

-- Globo Reporter - 7-mar-2014 --

A Massa



Político, sambista, povo, puta, estudante, massa...
E passa o desfile, e a procissão passa
E todos reclamam duma ou doutra joça
Sem que de tanta gente algum se levante e faça

Fazenda, favela, palafita, palhoça...
É tudo parte da mesma roça
São todas gentes que adubam de bosta
Esta terra amada de sangue juvenil

Minha pátria machucada,
Amada,
Brasil.

-- João Otero - 7-mar-2014 --

amor concretista

         
       pode  pode            ser ser                ser ser           concreto concreto             ? ? ? ? ? ? ? ? ?
      pode     pode          ser  ser              ser  ser     concreto             concreto       ? ? ?           ? ? ?
     pode        pode        ser ser ser     ser ser ser   concreto                  concreto    ? ? ?          ? ? ?
    pode pode pode       ser ser   ser  ser  ser ser    concreto                 concreto    ? ? ? ? ? ? ? ?
  pode   pode  pode      ser ser       ser     ser ser     concreto            concreto        ? ? ? ? ? ?
 pode               pode     ser ser                ser ser        concreto       concreto          ? ? ?      ? ? ?
pode                 pode    ser ser                ser ser           concreto concreto             ? ? ?         ? ? ?


-- João Otero - 6-mar-2014 --

05 março 2014

A melhor hora do meu ano.

Até o sono vir




Ah!,

Sejas com essas tuas curvas todas esse tudo-o-que-me-faz-feliz!

Sejas meu chafariz de juventude;

Minha alegria pueril que só ilude;

Meu sonho podre; meu ataúde.

Sejas minha imperatriz.

Acordes-me com um beijo e dê-me outro antes do sono vir.

E refaça tudo por mais um dia, com as curvas lindas que ontem eu nem via.

Só pra que passe esse dia,

E eu possa sorrir.




-- João Otero - 5-mar-2014 --

Pela rima pobre



Composta pela dor,
Prima pela rima nobre e rica -
Não por esta rima pobre, do amor -
Minha poesia.

Clama para quem fica - eu -
Ficar sozinho.

Clama para a memória ir embora.

Mas a memória chama.
E a chama, fica.

-- João Otero - 5-mar-2014 --

22 fevereiro 2014

Presente de Aniversário

Era o aniversário de um grande amigo. Amigo do peito mesmo, daqueles que se conta nos dedos.
E eu tinha que levar um presente.
Queria dar algo significativo, para demonstrar meus sentimentos. Mas não bastava sentar junto numa mesa de bar, dar um abraço e dizer "meus parabéns!". Não, eu tinha que marcar a data. Tinha que dar um presente. Mas não um presente qualquer de farmácia. Não podia ser um perfume, ou um conjunto de copos de cerveja... Muito clichê. Daria a impressão de que estou dando um presente apenas por obrigação, e que por pura conveniência pessoal nem me dei ao trabalho de pensar com carinho em qual o melhor objeto a presentear. Meu amigo não merecia isso. Eu queria que ele se sentisse especial, que percebesse e valorizasse o meu verdadeiro afeto. 
Sei que durou anos e nunca fui assim tão sincero, mas chega uma fase da vida da gente que a gente passa a considerar de fato e conscientemente aquelas pessoas que nos são importantes. E era chegada a minha vez. Eu queria demonstrar. E me pus a pensar em qual seria o melhor presente para o meu amigo.
Já sabido que abraço não, e que perfume também não, e tampouco copos de cerveja, comecei a imaginar quais presentes pudessem agregar valor maior à vida do meu amigo. Pensei em livros, para agregar conhecimento. Mas então me dei conta de que por maior que fosse o conhecimento agregado por um livro, geralmente são poucas as passagens que "ficam". E ainda o tal conhecimento seria usado, quando muito, uma vez lá ou outra na vida. Não. Eu precisava encontrar algo que fosse mais útil, mais cotidiano, uma utilidade mais imediata e presente.
Pensei em um show da banda de rock favorita. Uma memória que se tornaria eterna. Mas aí pensei que embora memórias sejam algo legal de se cultivar, bem, não agregam muito de prático à vida. E ele provavelmente já iria nesse show mesmo. E portanto, "eu" não teria feito tanta diferença assim em sua vida com um presente desses.
Pensei que tinha que ser algo útil, que durasse muito, e cogitei um carro. Um carro é puta útil! Ele vai adorar, e vai durar muito tempo. Ok, é caro... mas poxa, é meu amigão! Ele merece. Mas aí pensei que se eu desse um carro, poderia estar causando um mal, pois no ano que vem haveria outro aniversário e o que eu-endividado daria então? Sem contar que ele poderia se sentir ofendido, pensando que julgo que ele não teria condições de trocar de carro sozinho, caso quisesse... Não quero correr esse risco de perder uma amizade tão importante por besteira. E ademais, é um aniversário afinal, para comemorar a passagem de um único ano; e portanto eu precisava encontrar um presente de utilidade de um ano. O preço do presente pouco significa.
Pensei então que eu queria esse amigo pra sempre comigo. E que a vida é feita de passo em passo. Precisamos ter saúde para que o ano que vem aconteça. Saúde. Algo que fosse útil. Com utilidade imediata, que durasse este ano. Que agregasse à vida do meu amigo. Que ele percebesse o quanto eu o valorizo e admiro. Que lembrasse de mim até o próximo ano, para novamente comemorarmos juntos a nossa amizade.
Dei um fio-dental.
E depois de tudo isso, nem mesmo um "muito obrigado". É foda. Nunca faça nada com expectativa de reconhecimento. 

-- João Otero - 22-fev-2014 --

21 fevereiro 2014

Crônicas Tecnológicas I

E ali pela segunda década dos anos dois mil inventaram o carro que dava licença.
Perceberam que às vezes, quando iam estacionar os carros, o espaço disponível "quase" dava. Pensavam "se aquele carro ali atrás tivesse estacionado um pouquinho mais pra trás e aquele outro carro ali à frente tivesse estacionado um pouquinho mais adiante...". 

O princípio era o seguinte: o motorista que queria estacionar "pedia licença" aos carros da frente e de trás, que gentilmente religavam seus motores automaticamente e mesmo na ausência de seus donos andavam um pouquinho, caso houvesse espaço, para fazer uma vaga extra ao motorista que tentava estacionar.

Ideia genial! E tudo andava bem - fora o trânsito de São Paulo, que nunca até hoje ficou "bem". Mas ao menos havia umas vagas extras para estacionamento na rua... 

Até que um dia surgiu o primeiro caso de extraviamento espontâneo de automóveis - também apelidado de Alzheimer dos Carros - e que mais tarde, ao tornar-se mais corriqueiro e fazer com que alguns carros ficassem sem combustível para voltar para casa, obrigou as montadoras a um recall para conserto do bug. 

O bug era o seguinte: em certas ocasiões muito peculiares ocorria uma sequência de pedidos de licença para o mesmo carro; e acaso os carros de trás (ou da frente) tivessem desocupado sua vaga, liberando espaço para que o carro pudesse andar, o automóvel educadamente ia cedendo o seu lugar um pouquinho e um pouquinho mais, várias vezes seguidas. 

Ocorre que um dia o dono do tal automóvel educado não encontrou o carro no lugar que o tinha deixado e chamou a polícia. Foi aquela confusão... Até descobrirem seu carro gentilmente esperando à oitenta metros de distância. 

As montadoras corrigiram o problema rapidamente. Fizeram os carros aprenderem a negociar. O princípio era o seguinte: os carros ainda cederiam lugar, mas contanto que entendessem que não haviam mudado em muito a sua própria posição, de modo que seu dono não percebesse nenhuma mudança significativa a ponto de precisar chamar a polícia. Os carros passaram, de certa forma, a aprender a dizer "por favor; obrigado", mas também às vezes a dizer "desculpa, mas desta vez não". 

E tudo foi bem por um tempo - mas menos tempo que o que demorou para o primeiro recall, entretanto - até que um segundo recall foi necessário.

O negócio é que os carros desenvolveram por conta própria um sistema de créditos sociais. Funcionava assim, um carro dizendo ao outro, que respondia:
- Bom dia, você pode me dar licença?
- Desculpe, mas desta vez não...
- Mas só mais meio metro?
- Não dá, já andei bastante; meu dono não vai conseguir me encontrar depois...

E nesse ponto o carro solicitante desconfiava entre uma de duas coisas: ou era muita falta de cooperação e bom senso, ou então era apenas uma desculpinha por pura preguiça. E na ocasião em que o favor deveria ser retribuído, lembrava então da situação ocorrida e negava o pedido por puro remorso. 

Esse comportamento entre os carros escalou rapidamente, e os carros passaram até a discutir no meio da rua, veja só! Foi aquela lambança; comportamento de gente baixa mesmo... Mas enfim, o segundo recall foi feito e o novo bug foi consertado.

A solução encontrada foi fazer com que os carros reprimissem seus sentimentos antes que se transformassem em briga de tapas e socos.

Tudo voltou ao normal e ocorreu bem por um certo tempo. ...Até o primeiro suicídio. 

Os carros passaram a se sentir angustiados, ansiosos, deprimidos. Certo dia, um deles propositalmente atravessou o sinal vermelho e se matou. Em pouco tempo a ideia espalhou-se como um vírus, e não durou muito para, a despeito de todos os aparatos de segurança obrigatórios em todos os carros, o primeiro ser humano acabar morrendo também.

Mas não houve tempo para recall desta vez. Foi tudo muito rápido... Automóveis que estavam apenas passeando felizes da vida sentiram-se ofendidos com os encontrões e incomodações provocados por aqueles menos afortunados. Por sua feita, os desafortunados carros deprimidos em face de uma inveja silenciosa deprimiam-se ainda mais e alguns tornaram-se agressivos. Um grupo de carros extremistas organizou-se. Os ânimos se exaltaram. Em questão de dias ecolodiu a primeira guerra civil dos automóveis, como ficou conhecida nos anais da história.

Dinâmicas emergentes. Dinâmicas emergentes... Nunca foi fácil antecipar bugs.


Veja outras Crônicas Tecnológicas e outros textos.

-- João Otero - 21-fev-2014 --

14 fevereiro 2014

Oração

vaimesmo com a aflição que te perdura
mas deixa umas pegadas pra saber que veio
segue duma vez o teu insano anseio
e deixa que a aflição a vida cura
hás de encontrar dormente a face clara, 
na candura doce do teu seio
pois se te pára a vida agora triste e escura,
é que ela se guarda, ainda é futura
a vida pela qual teu peito é cheio
vai, e não te desiludas, segue firme a crença
saibas que tua chama acesa eterna dura
segue tua senda, põe-te com paciência
à prava do amor e sua fartura


-- João Otero - 11-fev-14 --

24 dezembro 2013

Para quem tem o olho inchado

Um amor fajuto. Desses de se querer ficar junto mesmo sem entender o porquê daquela dor insistente no peito onde devia ter só alegria. Mas daí, um dia, a gente acorda com olhos despertos, com olhos de ver, e percebe direito que quem tinha algo ali no lado esquerdo era só você. E a gente percebe que aquilo que nos fizeram crer não era exatamente bem aquilo... "Como que o meu grande amor mentiu pra mim?". "Bem, talvez não fosse tanto meu o amor assim", a gente se questiona. E logo em seguida meio que se desapaixona. E pronto: nasceu um desenganado. Mas a vida é uma longa estrada, com caminhos mil, para quem tem o olho inchado mas a alma juvenil. E depois que a gente murcha os olhos e vê que quase se perdeu na vida por um triz... um dia a gente se apruma e tenta... A gente sempre tenta mais uma vez ser feliz.

-- João Otero - 24-dez-2013 --

16 dezembro 2013

Sol e Lua



14 dezembro 2013

12 novembro 2013, São Paulo, 1:30 AM


Amor civilizado não é amor.
É um sofrimento quieto.

Queria agora














sonhos compartilhados
dar um presente

abraço sincero
viver uma vida
os sons da minha terra
minha metade

um chalé
paz
uma pêra

11 dezembro 2013

Papo sobre a importância do presente + uns conselhos farmacológicos de bônus...
Altos e baixos em crise existencial: os altos andam muito baixos, e os baixos são altos demais.
Lamotrigina neles.
Rumo a Cruz Alta. Preparando o espírito.
"Lasciate ogni speranza, voi che entrate"

10 dezembro 2013

Casca

hein, lua? não... tão longe, tão longe...
deixa eu querer essa areinha aqui da praia
tão gostosa de pisar
aqui na praia não tem flores, não tem borboletas
tem o mar...
mas não vou lá não (não tem nada lá!)
deixa eu ficar aqui na praia
comendo meu maracujá
aliás, uma vez já quis ser flor
mas olhando assim, quero ser fruta
uma fruta até bonita, vá lá
mas uma fruta com casca
é... quero ter casca

-- João Otero - 10-dez-2013 --

04 dezembro 2013

Devemos ter muito cuidado com as memórias que criamos.
Elas vão nos acompanhar por boa parte do resto de nossas vidas...
Parece que o coração quer sair pela boca.
Vácuo comprimindo o peito. Nó apertando a garganta.

03 dezembro 2013

Toques

A minha vida
é um poema sem fim
Tudo o que eu toco
toca em mim

E eu toco da vida
tudo o que é ruim

Bem, nem sempre
é assim...

Às vezes,
o toque vem fundo
no rim

Mas eu sei que é breve
da vida
a estadia

E tem sempre uns beijinhos
guardados
no outro dia

-- João Otero - 3-dez-2013 --

29 novembro 2013

Falaram-me de sentimentos descartáveis.
Rá! Pus no blog pra não esquecer como são as coisas...
E hoje, pela primeira vez na vida, eu entendi o significado da palavra hipocrisia. Just for the record.

28 novembro 2013

Novembro foi in-tenso

http://www.eumaior.com.br/

27 novembro 2013

Parque do Povo


Frivolidades





Fale-me frivolidades
Faz falta falá-las
Foram ficando fracas, fracas...
Fechadas, fechadas...
Faltaram em si mesmas.



 Veja outros poemas da coleção Letras

-- João Otero - 27-nov-2013 --


Filme

vivia a vida no pouco em pouco de cada suspiro
não à toa ia parado, enquanto essas coisas correm em volta
apreciando de quadro em quadro, não tinha pressa do fim do filme
era como se a vida gastasse
ia poupando...

-- João Otero - 27-nov-2013 --

26 novembro 2013

Acabei de assistir a porra duma comédia romântica e fiquei com muita raiva.
Just for the record. Merda.

25 novembro 2013

Anoitecer


"teu silêncio me preocupa" -- diz meu pai.

No stress. Tô falante.

A Escala das Coisas

Acumulamos muita coisa.
Do tênis novo, ao porta-retratos, o guarda-chuva, a bicicleta, o carro, a casa, o perfume - e segue a lista... Não pelas coisas em si, mas pelo que nos proporcionam: a atenção dos outros, a boa memória dos momentos com os amigos, a proteção da chuva quando necessário, a diversão, o transporte, o conforto e a segurança, o cheiro bom e um pouco mais de atenção.
Acontece que de tanta coisa, somos mais lentos que um caramujo. Não cabem nossas coisas todas em nossas costas. E tanta coisa assim, no fim, nos limita. Para termos tudo isso, ficamos parados - não podemos carregar. Em suma, nossas coisas não escalam. Ou seja: os benefícios que nossas coisas nos proporcionam, não escalam.
Escalar é quando o efeito ou benefício da coisa aumenta numa proporção maior do que a quantidade de coisas.
Se eu escrevo um texto em formato digital, esse texto escala: eu posso escrever uma única vez e distribuí-lo a um número grande de pessoas. Se eu escrever à mão, numa folha de papel, ele já não escala tão bem. Um tênis não escala. O guarda-chuva escala muito mal até duas pessoas. A bicicleta não escala. O porta-retratos requer um olhar seu para ter valor, e apenas naquele breve momento em que dura o teu olhar... As coisas não escalam, no geral.
Para termos o benefício de nossas coisas, teríamos que tê-las todas conosco, o tempo todo. Mas quantas coisas conseguimos carregar? Comparado com as coisas que temos, muito, muito poucas!
Ao invés de coisas, deveríamos acumular outras coisas: experiências. Experiências escalam, porque estão com você o tempo todo, em qualquer lugar, e você pode acumular mais e mais sem ocupar espaço, e conseguido carregá-las.
A quantidade de bons momentos e memórias de lugares fascinantes. O aprendizado de culinária, de línguas, de lugares, de técnicas, de matemática, de histórias. A memória muscular para desviar de um objeto em sua direção, ou para cair sem se machucar. A inteligência emocional para tratar com as pessoas e consigo mesmo. Saber dançar. Saber tocar uma música. Saber pensar.
Porque no final, você aproveita muito pouco de todas as coisas que tem - quase nada. E só o que te acompanha por toda a vida, em qualquer lugar, na prisão, na cama de hospital e até o leito de morte, são as suas experiências.
Ademais, as coisas produzem alguns efeitos colaterais: ansiedade, preocupação e a insegurança de perdê-las; que nos faz menos propensos a riscos, e por consequência menos propensos a experiências - e isso já seria ruim o bastante. Mas o pior, é que as coisas nos limitam: nos tiram a liberdade. Quem cuidará de suas coisas quando você quiser viajar pelos quatro cantos do mundo?
Quem teve a vida mais rica: o que acumulou coisas, ou o que acumulou experiências? Pois não são as experiências o propósito final das coisas? Ou seja, não temos coisas pelo que elas nos proporcionam, afinal?
Assim como as crenças, nossas coisas nos limitam.
Ok, as coisas são necessárias sim. Dormir ao relento não é legal. Ter que procurar um novo lugar para dormir toda noite não é lá muito tranquilizador. Uma casa facilita. Mas sua necessidade é sempre momentânea. O ideal seria tê-las todas descartáveis; alugáveis. Acumular o benefício das coisas, não as coisas em si.
Sem conclusões ainda. Só comecei a pensar nisso hoje...
Apenas percebi que o benefício das coisas que temos é muito ínfimo se comparado aos parcos momentos em que as usamos. Me parece um desperdício. Tanto de dinheiro, e quanto mais de vida - que na escala das coisas, é muito mais importante!

-- João Otero - 25-nov-2013 --




A vida não é dura...
É que ela nos empurra às vezes aonde não pensamos ir
Ela só é bem mais forte que as nossas vontades
Mas não dura
Basta não querermos tanto... Basta surfá-la um pouco
Na vida, só o que nos cabe são as nossas escolhas momentâneas
Todo o resto é puro wishful thinking

24 novembro 2013

Uma sala de cinema, antes do filme, sem gente dentro: perfeição de luz e silêncio.
Aprende a não querer, e terás o mundo.

Véu de chuva

véu de chuva
frêmito de asas
arrefecendo brasas
de almas ao relento
que numa tarde fulva
e num gostoso alento
de demorar o tempo
iam em pequenos frascos
acomodando os passos
que a lágrima turva
daquele véu de chuva
ia perdendo ao vento
e encobrindo os traços

-- João Otero - 24-nov-2013 --

21 novembro 2013


17 novembro 2013

Insônia. Segunda semana. Até parece filme...

Pois bem, vejamos onde levam os pensamentos aleatórios - a essas horas já nem devo pensar direito mesmo:

A palavra do dia (noite) é "ansiar". Ouvi falarem e anotei.

Palavra tão poética. Tão significativa. Desejar, almejar. Tão contraditória. Aflição, angústia. Tão repugnante. Náusea, enjôo.

Uma palavra que parece uma borboleta.
Fiquei pensando qual o meu estágio...

Fiquei pensando se não quer dizer tudo a mesma coisa, também. Deve querer. Deve ter um significado oculto, alguma espécie de radical da verdade, preso em todas as diferentes semânticas da palavra.

E se almejar for mesmo tão próximo de náusea quanto aparenta? Não seria então melhor não almejar?

Aí me lembro das viagens de carro para a praia, passando pelas curvas da serra... Náusea. Fixar o olhar ao longe. Passou... Aprendi com meu pai.

Fixar o olhar ao longe - quando vem a náusea. Ou quando almejar.

E eis que pensei nisso hoje mesmo: fixar o olhar ao longe - de certa forma.
Coincidências? Ou estou apenas fazendo acordado o trabalho cognitivo que o meu sonho deveria estar fazendo comigo dormindo? Organizando as gavetas... Juntando os trapos...?

Organizar os trapos. Fixar o olhar ao longe. Remediar a náusea. Suprimir o desejo.

Fixar o olhar ao longe.
Borboleta.

Bater asas.

Talvez um sonho. Só um sonho.
Só um pensamento furtivo.... Foi lá, voou... Sono. Dormir. (Tomara!)

15 novembro 2013

A abjeta morte de uma imagem idealizada. É a coisa mais triste do mundo.

Três Penas

Tenho três penas comigo:
Uma na mão,
Uma na alma,
E outra no umbigo
- porque lá parou meu coração
Uma me empurra ao perigo
Outra me pune na mesma razão
Mas é a terceira pena que me lembra
O que merece a minha atenção

-- João Otero - 15-nov-2013 --

14 novembro 2013

Café

soou o estampido
levanta
toma teu café
de pão francês
e leva a pobreza
para passear
às seis da manhã
pois deve ser bom
tá todo mundo lá
deve ser bom
volta com o sol
inverte o sorriso
na boca banguela
celebra em birita
batendo uma palma
no rosto lustroso
da tua mulher
e acorda
voltou a alegria!
soou o estampido
levanta
já é novo dia
toma teu café...

-- João Otero - 28-mar-2014 (nova versão --









soou o estampido
levanta
toma teu café
de pão francês
leva a pobreza pra passear
às seis da manhã
deve ser bom
tá todo mundo lá
deve ser bom
volta com o sol
inverte o sorriso
na boca banguela
celebra com birita
e bate palma
no rosto da mulher
e acorda
voltou a alegria!
soou o estampido
levanta
já é novo dia
toma teu café...

-- João Otero - 14-nov-2013 (versão original) --

10 novembro 2013

é muito dificil para mim aceitar a imperfeição
nao que eu nao aprecie beleza na contemporaneidade, nem que eu seja parnasiano
mas ainda sou romantico, idealista
vejo que há arte no acaso
os dramas sao historias até mais bonitas
que esses romances
mas os romances deixam abertas portas, por serem perfeitos, por nao terem feito escolhas ainda
o drama nao: se desenrola, não há volta
eu nao sei ainda viver sem escolha
nao sei bem aceitar, sem ficar imaginando como teria sido abrir a outra porta
estou em processo de reinventar-me
mas consciente;
não por mero acaso
já vejo beleza na
rima imperfeita
na métrica quebrada
nas dissonâncias do jazz e da bossa
Vejo a verdade do aikido
do improviso, do fluxo
o surf
o aceite, a adaptação de darwin
a vida idiossincrática, como ela é - do nelson
mas ainda desistir do sonho,
me soa com um tom de derrotismo
de justificativa
um gosto meio amargo
de icompetencia
até que ponto é uma mudança autêntica de paladar?
e até que ponto é só racionalização - eu, entregando os pontos?
até que ponto sou mesmo eu,  e onde começa minha percepção a ser influenciada pelos meus eus mais íntimos?
fracasso ou evolução,
sei lá...
ainda sou um romântico
no limite do idealismo
afinal, qual a borda do infinito?

01 outubro 2013

Doce

Passou
com a tristeza pendurada nos olhos
por toda a vida
E com um sorriso
de quem não merece,
Numa vida
de quem não esquece
como é doce um sacrifício
Ser triste
era quase uma aquarela
A tinta, um vício
A vida, a tela

-- João Otero - 1-out-2013 --

06 setembro 2013

Ensaio sobre a justiça

O traço mais marcante do ser humano é o egoísmo. No limite, sempre "primeiro eu".
Noções mais amplas de solidariedade e colaboração são praticadas até esse limite, apenas.
E a própria noção de justiça, que é um conceito abstratro produzido sobre esses outros conceitos mais fundamentais, também sofre essa influência. A ponto de eu afirmar que, de fato, não existe. Existe apenas como conceito, mas jamais será respeitado de forma unânime por uma população muito grande, por longos períodos de tempo. E a razão é que a "percepção" de justiça sofre influência do egoísmo, que é intrínsico e basal na personalidade do humano bicho. Senão, vejamos: quando o outro ganha o dobro que eu, tem mais importância o fato de eu ter ganho metade do que o fato de eu ter ganho algo extra, que eu não possuía antes. A inveja é relativa ao outro, não a mim ou ao que eu tenho. E tal fato é totalmente irrelevante ao conceito de justiça em sua acepção mais fundamental. Mas eu "sinto" injusto. Agora, veja-se: um mundo idealizado totalmente justo tende a produzir desigualdade - os indivíduos mais bem preparados, os mais afortunados, os mais inteligentes, os mais capacitados... naturalmente, no tempo, vão produzir mais, vão se sair melhor. Qualquer correção forçada desse fato, implica numa injustiça potencial. Mas assumindo-se que a injustiça não ocorra, haverá ao menos a "percepção" de injustiça, decorrente da inveja humana. Assim, a humanidade se auto-regula num patamar inferior: quem se sobressai demais, torna-se excluído; quem acumula demais, gera revolta; quem chama atenção demais, ganha torcida contra. Tanto em relação a indivíduos, quanto a grupos, classes sociais e até mesmo nações. É notória a predileção dos seres humanos pelo "mais fraco", seja time, indivíduo, empresa... Mas não há nesse fato senso algum de justiça. O fraco não têm necessariamente mais mérito pela predileção.  Há sim um senso de inveja, cuja raíz é o egoísmo humano natural. Há muias vezes um senso de empatia, que também é natural, visto que a "maioria", estatisticamente, tende a ser abaixo da média. O que impera, no fundo, é o egoísmo. A justiça, como conceito, é portanto utópica. Mas se no limite, vale o egoísmo, então no limite vale tudo. Só que isso gera insegurança, que egoísticamente, não é algo bom. Emerge naturalmente decorrente disso um acordo tácito onde certos padrões de justiça são respeitados. Mas o respeito à justiça ocorre apenas do ponto de vista de um máximo "local": pode-se esperar justiças em pequenos fatos; mas não se pode esperar justiça de um ponto de vista de máximo "global", respeitada em todos os momentos em relação a um indivíduo qualquer... pois essa juistiça global produz percepção de injustiça. É quase como dizer que receber justiça demais é injusto... É como se a sociedade ainda exigisse um certo grau de selvagerismo, necessário para acalmar ânimos dos menos afortunados que, estatisticamente, são maioria. Sim, é à força da maioria que tudo se rege. E a maioria é sub-ótima. Apenas uma triste constatação da realidade.

-- João Otero - 6-set-2013 --

02 setembro 2013

Fotografia

Fotografia é arte de fazer poesia com imagens dos outros.

01 setembro 2013

Das duas coisas: Piores tipos de Gente do Mundo

Os dois piores tipos de gente do mundo são: os ordinários.

01 agosto 2013

Meus poemas me dão ânsia de vômito - a maioria das vezes.
E às vezes é o contrário.

15 julho 2013

Grilos

Fica um pouco mais, madrugada
Não me deixe vir incomodar os passarinhos
Cala o barulho do sol que atropela o dia
Pára o tempo no infinito pra eu conversar com os grilos
bem mais serenos que esses passarinhos bobos
Deixa o tempo durar mais um pouco
que essa barulheira do sol faz faltar tempo pra tudo
Nem acabei meu livro ainda…

-- 15-jul-2013 João Otero --

Sucessão

Sucedeu que o moço era pinta. Sapato era branco; chapéu, Panamá.
Sucedeu que a pele era parda. E a palma batia um pandeiro no samba.
Sucedeu que esse moço era bamba, a corrente de ouro pendia no peito.
Sucedeu que o negão tinha jeito. E a morena sambava olhando pra cá.
Sucedeu uma faca - do nada...
Atrapalhou o batuque. Uma poça; uma viatura.
"O que sucedeu?"
"Sei não, sinhô! O moço tava só cantando…"

-- 22-abr/15-jul-2013 João Otero --

17 maio 2013


Se eu pudesse em algumas linhas
equacionar corações,
Talvez me viessem em retas
e catenárias de aço
Firmes riscos que iriam perdendo o traço…
E virariam canções
Embalando dissonâncias de lá…
Coração de engenheiro: a mais frágil estrutura que há

-- João Otero - San Francisco, 17-maio-2013 --

30 abril 2013

Dos bobos, os apaixonados são os mais espertos.

07 março 2013


Pluralizei com retóricas o pronome da carta que te escrevi: diálogo íntimo com meu alter ego.
Meu jardim esteve sempre aberto a visitações.

-- João Otero - 7-mar-2013 --

04 março 2013

Saudade



Era a saudade...
Que tingia de azul a rosa
Que regava o gramado da idade
Que calava esta voz que medra
Ao ver esculpida na pedra
Uma derradeira prosa
Era a saudade.

-- João Otero - 4/mar/2013 --

09 janeiro 2013

Companhia


...eras mais bela quando tinhas olhos tristes
mas ainda agora tu insistes em me fazer companhia
enchias-te de lágrimas enquanto eu te sorria
e agora tu me esnobas exagerando alegria 
pois veja só como é… veio outro dia!

mas ainda é sempre muito bom te ver, minha cara poesia

-- João Otero - 8-jan-2013 --

04 janeiro 2013

Passarinhos suicidas


Passarinhos suicidas
se jogam na frente do carro
quando começo a correr

Passarinhos suicidas desastrados
...Nunca conseguiram morrer

-- João Otero - 4-jan-2013 --

03 dezembro 2012

Beijos n'água




bateu veloz a asa num zum-zum aveludado
bebericou a água e me mandou um beijo a nado
ficou um tempo em fanfarra, ali no meio do círculo:
picadeiro do circo da cigarra

-- João Otero - 3-dez-2012 --

Vermelho

Quisera ter eu teu batom borrado em meus lábios
Quisera ser sábio pra te conquistar
Quisera ter sorte em quem sabe na vida que passa
Saber te tirar pra dançar
E um pouco mais perto de ti,
Um pouco mais perto da boca,
Ou em qualquer lugar,
Poder aproveitar esse brilho vermelho
Que apenas das almas leoninas emana:
Vermelho de paixão sem-par

-- João Otero - 2-dez-2012 --