E depois de muito tempo passado
O que eu faço se eu descobrir
Que o mesmo tanto de muito passado
É o mesmo tanto de muito que descobri
Estar gostando ainda muito mais de ti?
-- João Otero - 9-jun-10 --
29 maio 2010
Desencantamento
...E então, querida,
Serás esquecida
Como uma foto amarelada e esmaecida,
Como uma ninguém
Como mais uma formosa entremeada num harém
Serás tão só mais um refrão que um dia eu já cantei
Tu serás quem me esqueceu, e a quem esqueci também
Tu serás rastro de névoa nos quintais de minha vida
Tu serás uma lembrança em alguns cacos repartida
Tu serás doce mistério
Que só o meu passado tem
-- João Otero - 4-29-mai-10 --
Serás esquecida
Como uma foto amarelada e esmaecida,
Como uma ninguém
Como mais uma formosa entremeada num harém
Serás tão só mais um refrão que um dia eu já cantei
Tu serás quem me esqueceu, e a quem esqueci também
Tu serás rastro de névoa nos quintais de minha vida
Tu serás uma lembrança em alguns cacos repartida
Tu serás doce mistério
Que só o meu passado tem
-- João Otero - 4-29-mai-10 --
22 maio 2010
Da procura
Vende-se tragédias!
Tragédias feitas de pó e vento
Que contrapesam êxtases imerecidos
Vende-se tragédias que complementam vidas
-- João Otero - 22-mai-10 --
Tragédias feitas de pó e vento
Que contrapesam êxtases imerecidos
Vende-se tragédias que complementam vidas
-- João Otero - 22-mai-10 --
Porque pediste pra eu falar de cores (Amarelo)
Eu e os ébrios - braços dados numa saudosa harmonia
Sob o reflexo dourado do luar fraterno já minguando mais um dia
Brindo! com mais cinco dedos de gelada alegria
À sapiência deste olhar impreciso
Que vê em dobro a beleza
E que duplica os sorrisos dessas bocas tão macias!
Veja outros poemas da coleção Cores
-- João Otero - 22-mai-10 --
Sob o reflexo dourado do luar fraterno já minguando mais um dia
Brindo! com mais cinco dedos de gelada alegria
À sapiência deste olhar impreciso
Que vê em dobro a beleza
E que duplica os sorrisos dessas bocas tão macias!
Veja outros poemas da coleção Cores
-- João Otero - 22-mai-10 --
14 maio 2010
Pontacabeça
Prólogo:
Eu sei que meu português ficou uma bosta neste texto. Mas não importa muito. A mensagem é o mais importante.
Pontacabeça
Eu olho em volta e vejo tudo muito raso, muito rápido, muito superficial, muito efêmero.
Relacionamentos fast-food, pegos numa caixinha em uma balada da moda qualquer, e largados em alguma lixeira 15 minutos depois.
Todos pegando todos, e ninguém lembrando de ninguém.
Namorados que não se vêem no sábado, que preferem sair com os amigos. Que não sentem falta um do outro.
Vejo beijos fazendo fila na boca de qualquer um/uma...
Vejo a ostentação sendo usada muito eficazmente como uma arma na busca por sexo... E vejo pessoas caindo nessa! O ingresso de tanto, o passe que é VIP, o dono de tal empresa, o "amigo" influente, a bebida mais cara, a casa da moda, as roupas de marca, o carro mais caro...
Eu vejo a sinceridade virando algo conveniente e circunstancial: não ouço mentiras, mas tampouco ouço as verdades, pois elas são escondidas.
Eu vejo a falta de franqueza; a falta do vou-dizer-na-tua-cara.
Eu vejo a falta de envolvimento, despreocupação com os sentimentos alheios: vejo um jogo de conquistas, e os sentimentos virarem troféus.
Eu vejo a busca pelo prazer rápido, descomprometido, descartável.
Eu vejo relacionamentos tapa-buracos, convenientes para preencher as happy(dead)-hours pós trabalho.
Vejo pessoas se comunicando online num domingo, estando na mesma cidade, estando às vezes na mesma sala...
Eu fico triste vendo as pessoas se tratando e sendo tratadas como joguetes.
Amigos amarelos; máscaras sociais; joguinhos sociais; comportamentos subliminares.
Eu vejo todas essas coisas em excesso, dia após dia. E me falta o que preencha a minha alma. E duvido que essas coisas preencham alguma alma, aliás.
Eu sinto pena pelas pessoas que agem assim; e que de fato acreditam (isso é o pior) estarem fazendo o melhor para si. Pena porque talvez nunca descubram de verdade uma felicidade mais longa.
Eu vejo pressa em ter-se o que não importa, e paciência demais, morosidade demais em se buscar as coisas que importam. Todos querem status, carreira, dinheiro; ninguém quer música, companheirismo, risadas, jantar em família...
Todos perguntam "O que você faz?"; ninguém pergunta "O que você quer fazer?".
Todos perguntam "Onde você mora?"; ninguém pergunta "Aonde você vai?".
Eu vejo conformismo, e isso me indigna...
Valores invertidos. Mundo de pontacabeça.
Eu vejo escravos da vida estudar-trabalhar-casar-ter-filhos; escravos das normas; escravos do que a família-amigos-sociedade vai pensar; escravos do conformismo das coisas-que-são-assim-e-não-vão-mudar.
Eu vejo pessoas desistindo de tudo muito fácil, pelas mais esfarrapadas desculpas: desistindo dos sonhos, desistindo de uma paixão, desistindo de uma aventura, desistindo de um amor. Mentem à si mesmas.
Eu vejo pessoas desacreditando que a bondade existe em maior oferta no coração das pessoas do que existem a sacanagem, a malandragem, a maldade, o desrespeito.
Isso me lembra um pouco o fundamento do terrorismo, sobrevivente pelos noticiários da noite ou através das páginas policiais de jornal... Porque embora haja sim sacanagem, malandragem e maldade, tudo isso é muito pequeno, mas causa um impacto muito grande.
As pessas mudam de comportamento porque amplificam uma percepção negativa muito além do que deveriam. As pessoas mudam de comportamento porque passam a sentir medo demais. E todos, aterrorizados, ficam imóveis. Rugido de um tigre: pessoas imóveis! Situação adversa: pessoas imóveis! Terrorismo: pessoas imóveis! Medos, medos, medos: pessoas imóveis dentro de si; pessoas egoístas; pessoas que não se deixam levar. Merda de cérebro que funciona assim.
E eu vejo muitas pessoas com medo: de sofrer, de se entregar, de persistir, de se arriscar... Morrendo sem saber. Vivendo sem sentir. Sentindo até, mas muito pouco; muito menos do que poderiam... E por que? Porque têm medo. Não há como sentir o máximo sem que seja se arriscando ao máximo também.
Mas o medo de sentir-se mal é maior do que o benefício de sentir-se bem, paradoxalmente.
Isso não entra na minha cabeça: como alguém prefere o não-sentir ao sentir-se muito bem, só por existir um risco de sentir-se mal?! Zumbis... Zumbis é que não sentem! Sinto como se tivesse nascido no lugar errado, na época errada.
Que graça tem viver uma vida que um dia acaba - sempre - se for só pra deixar ela passar pela gente?! Sentir-se mal, que seja, não vale mais a pena?! Sentir-se bem, não vale o risco?!
Só a coragem enfrenta o medo. Só a fé - que é acreditar por acreditar, sem ter certezas - é capaz de gerar coragem.
Falta fé.
Eu só quero dizer que eu não faço parte dessa merda.
Um contra-argumento seria me perguntar se eu sou feliz. Não sou; e é cada vez mais difícil. Mas eu ainda tenho fé.
E quando eu for, vai ser 100%, não pela metade.
A minha fé é que haja mais alguém que também não faça parte dessa merda toda... E se houver, não diga, simplesmente: haja com um pouco mais de caráter, com uma pitada a mais de coragem. Terás assim ajudado o mundo a viver um pouco melhor. E terás me ajudado também.
-- João Otero - 14-mai-10 --
Eu sei que meu português ficou uma bosta neste texto. Mas não importa muito. A mensagem é o mais importante.
Pontacabeça
Eu olho em volta e vejo tudo muito raso, muito rápido, muito superficial, muito efêmero.
Relacionamentos fast-food, pegos numa caixinha em uma balada da moda qualquer, e largados em alguma lixeira 15 minutos depois.
Todos pegando todos, e ninguém lembrando de ninguém.
Namorados que não se vêem no sábado, que preferem sair com os amigos. Que não sentem falta um do outro.
Vejo beijos fazendo fila na boca de qualquer um/uma...
Vejo a ostentação sendo usada muito eficazmente como uma arma na busca por sexo... E vejo pessoas caindo nessa! O ingresso de tanto, o passe que é VIP, o dono de tal empresa, o "amigo" influente, a bebida mais cara, a casa da moda, as roupas de marca, o carro mais caro...
Eu vejo a sinceridade virando algo conveniente e circunstancial: não ouço mentiras, mas tampouco ouço as verdades, pois elas são escondidas.
Eu vejo a falta de franqueza; a falta do vou-dizer-na-tua-cara.
Eu vejo a falta de envolvimento, despreocupação com os sentimentos alheios: vejo um jogo de conquistas, e os sentimentos virarem troféus.
Eu vejo a busca pelo prazer rápido, descomprometido, descartável.
Eu vejo relacionamentos tapa-buracos, convenientes para preencher as happy(dead)-hours pós trabalho.
Vejo pessoas se comunicando online num domingo, estando na mesma cidade, estando às vezes na mesma sala...
Eu fico triste vendo as pessoas se tratando e sendo tratadas como joguetes.
Amigos amarelos; máscaras sociais; joguinhos sociais; comportamentos subliminares.
Eu vejo todas essas coisas em excesso, dia após dia. E me falta o que preencha a minha alma. E duvido que essas coisas preencham alguma alma, aliás.
Eu sinto pena pelas pessoas que agem assim; e que de fato acreditam (isso é o pior) estarem fazendo o melhor para si. Pena porque talvez nunca descubram de verdade uma felicidade mais longa.
Eu vejo pressa em ter-se o que não importa, e paciência demais, morosidade demais em se buscar as coisas que importam. Todos querem status, carreira, dinheiro; ninguém quer música, companheirismo, risadas, jantar em família...
Todos perguntam "O que você faz?"; ninguém pergunta "O que você quer fazer?".
Todos perguntam "Onde você mora?"; ninguém pergunta "Aonde você vai?".
Eu vejo conformismo, e isso me indigna...
Valores invertidos. Mundo de pontacabeça.
Eu vejo escravos da vida estudar-trabalhar-casar-ter-filhos; escravos das normas; escravos do que a família-amigos-sociedade vai pensar; escravos do conformismo das coisas-que-são-assim-e-não-vão-mudar.
Eu vejo pessoas desistindo de tudo muito fácil, pelas mais esfarrapadas desculpas: desistindo dos sonhos, desistindo de uma paixão, desistindo de uma aventura, desistindo de um amor. Mentem à si mesmas.
Eu vejo pessoas desacreditando que a bondade existe em maior oferta no coração das pessoas do que existem a sacanagem, a malandragem, a maldade, o desrespeito.
Isso me lembra um pouco o fundamento do terrorismo, sobrevivente pelos noticiários da noite ou através das páginas policiais de jornal... Porque embora haja sim sacanagem, malandragem e maldade, tudo isso é muito pequeno, mas causa um impacto muito grande.
As pessas mudam de comportamento porque amplificam uma percepção negativa muito além do que deveriam. As pessoas mudam de comportamento porque passam a sentir medo demais. E todos, aterrorizados, ficam imóveis. Rugido de um tigre: pessoas imóveis! Situação adversa: pessoas imóveis! Terrorismo: pessoas imóveis! Medos, medos, medos: pessoas imóveis dentro de si; pessoas egoístas; pessoas que não se deixam levar. Merda de cérebro que funciona assim.
E eu vejo muitas pessoas com medo: de sofrer, de se entregar, de persistir, de se arriscar... Morrendo sem saber. Vivendo sem sentir. Sentindo até, mas muito pouco; muito menos do que poderiam... E por que? Porque têm medo. Não há como sentir o máximo sem que seja se arriscando ao máximo também.
Mas o medo de sentir-se mal é maior do que o benefício de sentir-se bem, paradoxalmente.
Isso não entra na minha cabeça: como alguém prefere o não-sentir ao sentir-se muito bem, só por existir um risco de sentir-se mal?! Zumbis... Zumbis é que não sentem! Sinto como se tivesse nascido no lugar errado, na época errada.
Que graça tem viver uma vida que um dia acaba - sempre - se for só pra deixar ela passar pela gente?! Sentir-se mal, que seja, não vale mais a pena?! Sentir-se bem, não vale o risco?!
Só a coragem enfrenta o medo. Só a fé - que é acreditar por acreditar, sem ter certezas - é capaz de gerar coragem.
Falta fé.
Eu só quero dizer que eu não faço parte dessa merda.
Um contra-argumento seria me perguntar se eu sou feliz. Não sou; e é cada vez mais difícil. Mas eu ainda tenho fé.
E quando eu for, vai ser 100%, não pela metade.
A minha fé é que haja mais alguém que também não faça parte dessa merda toda... E se houver, não diga, simplesmente: haja com um pouco mais de caráter, com uma pitada a mais de coragem. Terás assim ajudado o mundo a viver um pouco melhor. E terás me ajudado também.
-- João Otero - 14-mai-10 --
07 maio 2010
Teus Cabelos
Não há mais os teus cabelos pelo banco do meu carro...
Mas há um fiapo... Há um fiapo ainda aqui!
Desses cabelos que um dia eu conheci
Com as pontas de meus dedos
Desses cabelos que eu até senti
Uma vez o gosto, o medo...
O cheiro! - perfumado de vaidade
...Esse fiapo dos teus cabelos
se enosou na minha saudade
-- João Otero - 7-mai-10 --
Mas há um fiapo... Há um fiapo ainda aqui!
Desses cabelos que um dia eu conheci
Com as pontas de meus dedos
Desses cabelos que eu até senti
Uma vez o gosto, o medo...
O cheiro! - perfumado de vaidade
...Esse fiapo dos teus cabelos
se enosou na minha saudade
-- João Otero - 7-mai-10 --
06 maio 2010
05 maio 2010
04 maio 2010
Passatempo
Minha cabeça, se afogando em horas-lixo -
Que são tão só esbanjadoras dos meus dias
Que um a um, e em penoso sacrifício
Que é tão dôce, qual o gôsto que eu lhe tinha
Disponho ao tempo - incinerante e compreensivo;
Vai se esquecendo e se ocupando até à tardinha
Da dor de um peito - lancinante e possessiva
Que só amanhã, depois do sono - quando venha
Volta a sofrer, mas já mais terna e esmaecida
-- João Otero - 4-maio-10 --
Que são tão só esbanjadoras dos meus dias
Que um a um, e em penoso sacrifício
Que é tão dôce, qual o gôsto que eu lhe tinha
Disponho ao tempo - incinerante e compreensivo;
Vai se esquecendo e se ocupando até à tardinha
Da dor de um peito - lancinante e possessiva
Que só amanhã, depois do sono - quando venha
Volta a sofrer, mas já mais terna e esmaecida
-- João Otero - 4-maio-10 --
29 abril 2010
Dores
Me doem no peito uns amores...
De uns sorrisos, de uns olhares, de umas cores
Que tive - ou achei que tive
Como sinceros aos meus louvores
...E outros olhos (cheios de cores!)
...E outros lábios (cheios de amores!)
...E outros braços (cheios de flores!)
Passam nas ruas...
Enquanto meu peito - cheio de dores
Me tem doendo mais uns amores
-- João Otero - 29-abr-10 --
De uns sorrisos, de uns olhares, de umas cores
Que tive - ou achei que tive
Como sinceros aos meus louvores
...E outros olhos (cheios de cores!)
...E outros lábios (cheios de amores!)
...E outros braços (cheios de flores!)
Passam nas ruas...
Enquanto meu peito - cheio de dores
Me tem doendo mais uns amores
-- João Otero - 29-abr-10 --
27 abril 2010
26 abril 2010
Escolhas
Não se pode ter tudo.
É inevitável: não se ganha nada sem se perder algo em troca.
Nossa esperança é ter um pouco de juízo e alguma sorte para decidir agora sobre as escolhas que se mostrarão as mais sábias no futuro.
E não há muito mais certeza na decisão de agora do que a que há num jogo de azar...
Nem sempre as melhores escolhas são realmente as melhores escolhas.
Certo, mesmo, é que nunca se pode ter tudo.
A fé, no final das contas, é só o que resta.
É inevitável: não se ganha nada sem se perder algo em troca.
Nossa esperança é ter um pouco de juízo e alguma sorte para decidir agora sobre as escolhas que se mostrarão as mais sábias no futuro.
E não há muito mais certeza na decisão de agora do que a que há num jogo de azar...
Nem sempre as melhores escolhas são realmente as melhores escolhas.
Certo, mesmo, é que nunca se pode ter tudo.
A fé, no final das contas, é só o que resta.
22 abril 2010
Poeminha ao vento
Se um vento assim qualquer te soprar ao pé do ouvido
Bem decerto que fui eu que sussurrou pensando em ti
Mas se ao toque dele, mudo, despertar-te a libido
Foi tão só um beijo meu que se perdeu por aí...
-- João Otero - 22-04-10 --
Bem decerto que fui eu que sussurrou pensando em ti
Mas se ao toque dele, mudo, despertar-te a libido
Foi tão só um beijo meu que se perdeu por aí...
-- João Otero - 22-04-10 --
16 abril 2010
Inefável
Eu quero uma revolução, uma guerra,
Uma epidemia
Uma dor de verdade
Uma verdade mais crua
Uma poça de vômito no meio da rua
Um caco encravado na unha
E uma costela partida
Eu quero da esperança a cara triste,
Definhando um sorriso banguela;
E eu com o dedo em riste
Abafando uma saudade
Eu quero um punho em figa
Uma marca da mão estendida na cara
Um pontapé pontiagudo na barriga
Esmagando a realidade
Das verdades que qualquer um diga
Eu quero meu olho cerrado
Os cílios como espinhos encrustrados
Sobre minhas pálpebras ressentidas
E a minha liberdade teria outro gosto
Eu, desapegado de mim mesmo,
Indiferente à minha própria felicidade,
Descuidado de meu próprio rosto
Seria livre, enfim!, para até me ser cruel de mim,
Para até sorver o meu desgosto
E tudo o que me tivessem seria bom
Pois tudo o que eu quisesse, nem ia querer...
Porque de tanto ter, eu não teria nada...
De tanto ser, eu não seria pôrra de nada
Eu não teria pó, nem pena,
Eu não teria pedra,
Eu não teria estrada...
-- João Otero - 16-abr-10 --
Uma epidemia
Uma dor de verdade
Uma verdade mais crua
Uma poça de vômito no meio da rua
Um caco encravado na unha
E uma costela partida
Eu quero da esperança a cara triste,
Definhando um sorriso banguela;
E eu com o dedo em riste
Abafando uma saudade
Eu quero um punho em figa
Uma marca da mão estendida na cara
Um pontapé pontiagudo na barriga
Esmagando a realidade
Das verdades que qualquer um diga
Eu quero meu olho cerrado
Os cílios como espinhos encrustrados
Sobre minhas pálpebras ressentidas
E a minha liberdade teria outro gosto
Eu, desapegado de mim mesmo,
Indiferente à minha própria felicidade,
Descuidado de meu próprio rosto
Seria livre, enfim!, para até me ser cruel de mim,
Para até sorver o meu desgosto
E tudo o que me tivessem seria bom
Pois tudo o que eu quisesse, nem ia querer...
Porque de tanto ter, eu não teria nada...
De tanto ser, eu não seria pôrra de nada
Eu não teria pó, nem pena,
Eu não teria pedra,
Eu não teria estrada...
-- João Otero - 16-abr-10 --
07 abril 2010
Montanha Encantada
Montanha Encantada - (Diálogo Poético com Carlos Drummond de Andrade)
Enquanto mais alto ela ia,
mais encantada ficava
E nessa montanha dourada eu subia, subia...
Mas tinha uma pedra no meio do caminho.
No meio do caminho tinha uma pedra.
E enquanto eu descia rolando, devagarinho
menos encantado eu me tornava...
-- João Otero - 7-abr-10 --
Enquanto mais alto ela ia,
mais encantada ficava
E nessa montanha dourada eu subia, subia...
Mas tinha uma pedra no meio do caminho.
No meio do caminho tinha uma pedra.
E enquanto eu descia rolando, devagarinho
menos encantado eu me tornava...
-- João Otero - 7-abr-10 --
06 abril 2010
05 abril 2010
Elegia da Minha Própria Morte
Logo eu comecei, fui vivendo a vida - e ela adoecia...
A cada dia a mais, um dia a menos me vinha
Quanto mais eu a usava, muito menos dela eu tinha
E ela me apressava,
Olhava pra mim e se ria...
Ria ela de Mim! A vida breve e fraca
A vida parca e rota,
A vida opaca e fria..!
Então desisti da vida e fui viver minha morte -
Como se mais moça, como se mais forte,
Como com mais gosto e muito mais sabida,
E com mais intuito
De seguir adiante
A sua própria vida...
E então - eu já morrendo - fui Eu lá rir dessa vida!
Ri dessa vida fraca, ri dessa vida fria
E fiz da minha nova morte uma constante elegia
Espiei as frestas, como se espia,
Coisas de curiosos aonde quer que eu ia
E me esfreguei em braços que eu nem sabia
Se eram tão sinceros - mas eu nem queria...
Fui sorver orvalhos que eu não conhecia
Desses que se brotam em erva-daninha
...E enquanto eu fui morrendo, nesse meu dia-a-dia,
A cada um dia a menos, um dia a mais eu tinha!
E um dia, tudo se foi...
Foi-se a vida, foi-se troça, foi-se a morte -
Que eu tive breve e sem-sorte -
Mas que foi muito bem vivida!
-- João Otero - 3-abr-2010 --
A cada dia a mais, um dia a menos me vinha
Quanto mais eu a usava, muito menos dela eu tinha
E ela me apressava,
Olhava pra mim e se ria...
Ria ela de Mim! A vida breve e fraca
A vida parca e rota,
A vida opaca e fria..!
Então desisti da vida e fui viver minha morte -
Como se mais moça, como se mais forte,
Como com mais gosto e muito mais sabida,
E com mais intuito
De seguir adiante
A sua própria vida...
E então - eu já morrendo - fui Eu lá rir dessa vida!
Ri dessa vida fraca, ri dessa vida fria
E fiz da minha nova morte uma constante elegia
Espiei as frestas, como se espia,
Coisas de curiosos aonde quer que eu ia
E me esfreguei em braços que eu nem sabia
Se eram tão sinceros - mas eu nem queria...
Fui sorver orvalhos que eu não conhecia
Desses que se brotam em erva-daninha
...E enquanto eu fui morrendo, nesse meu dia-a-dia,
A cada um dia a menos, um dia a mais eu tinha!
E um dia, tudo se foi...
Foi-se a vida, foi-se troça, foi-se a morte -
Que eu tive breve e sem-sorte -
Mas que foi muito bem vivida!
-- João Otero - 3-abr-2010 --
Despautérios
Eu tenho pressa de ti!
Vivo na ânsia do sempre!
E são eternos esses minutos ternos e carinhosos dos teus agrados...
...Mas são mais longas as infindáveis delongas desses teus carinhos sempre atrasados
E até espero por ti
Mas do meu jeito - presente
E quando não vens faz ausente o que eu mais quero - e já não te quero mais cá do meu lado...
...Mas quando não quero, consentes; do beijo mais puro ao mais profanado
Então desatino por ti!
Pairo na volúpia ardida
Eu, do teu lado, apressado
Tu, no teu passo, perdida
-- João Otero - 3-abr-2010 --
Vivo na ânsia do sempre!
E são eternos esses minutos ternos e carinhosos dos teus agrados...
...Mas são mais longas as infindáveis delongas desses teus carinhos sempre atrasados
E até espero por ti
Mas do meu jeito - presente
E quando não vens faz ausente o que eu mais quero - e já não te quero mais cá do meu lado...
...Mas quando não quero, consentes; do beijo mais puro ao mais profanado
Então desatino por ti!
Pairo na volúpia ardida
Eu, do teu lado, apressado
Tu, no teu passo, perdida
-- João Otero - 3-abr-2010 --
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