E depois de rimar essas vogais
que despencam dos meus olhos
com um "vai, meu pai... descanse em paz"
queria que as lêsseis de traz pra frente
e me dissésseis:
"ia, meu filho... não vou mais!"
...Mas eu sei que tu não podes me esquentar
outra vez com teu beijo
se da boca fria o hálito nem sai
Tenho então meus olhos soluçando com as vogais
que eu não queria
rimas de perfeita companhia
ao resto de esperança que me trai
-- João Otero - 26-ago/15-set-10 --
15 setembro 2010
05 setembro 2010
15 agosto 2010
Houvesse figura
é tão doído
um parto de letras
num buraquinho que nem se consegue saber
pra se dizer o que nem lá se tem consciente
...essas palavras que eu não consigo achar
entre dois-pontos e um parêntese aberto
-- João Otero - 16-ago-10 --
um parto de letras
num buraquinho que nem se consegue saber
pra se dizer o que nem lá se tem consciente
...essas palavras que eu não consigo achar
entre dois-pontos e um parêntese aberto
-- João Otero - 16-ago-10 --
pensamento: E viveram felizes para sempre
"...E viveram felizes para sempre" é algo que um autor preguiçoso escreveu pra não ter que continuar a história em outros livros... E desde então, os demais autores apenas copiaram.
05 agosto 2010
29 julho 2010
Tudo o Que Eu Posso
Tudo o que eu posso
se configura num bem-querer
num avaliar
num decidir
Tudo o que eu posso
se transfigura em não-sentir
num quebra-mar
num "venha aqui!"
Tudo o que eu posso
é bruma branca em dia de sol
é folha seca em um outono
e algum perfume inevitável
na primavera
Tudo o que eu posso
quem me dera!
era querer ser
um pouco mais que esse sofrer
em querer ser o que eu não posso
-- João Otero - 29-jul-10 --
se configura num bem-querer
num avaliar
num decidir
Tudo o que eu posso
se transfigura em não-sentir
num quebra-mar
num "venha aqui!"
Tudo o que eu posso
é bruma branca em dia de sol
é folha seca em um outono
e algum perfume inevitável
na primavera
Tudo o que eu posso
quem me dera!
era querer ser
um pouco mais que esse sofrer
em querer ser o que eu não posso
-- João Otero - 29-jul-10 --
25 julho 2010
19 julho 2010
Hipocondríaco e Sintomático
Hipocondriaco e Sintomático
Eu, hipocondríaco, sintomático, quase transformo em febre reumática uma mera streptococcus. Não é que, preocupado em sufocar de dor, acordo eu e entro na internet pra descobrir do que se trata minha chaga; e horas depois, ao acordar novamente no meio da noite, meu dedão do pé tá inchado, doendo, pulsando, como se eu tivesse chutado a quina do balcão - ou como se eu tivesse mesmo é com uma febre reumática?!
Aos hipocondríacos como eu são aos que mais funcionam os placebos, e aos que menos servem os homeopáticos. Pois é só dizer que há uma chance remota de um efeito colateral para ele virar sintoma líquido e certo; e é só dizer que "leva tempo, mas funciona...", que o tempo esse é exagerado, e vira "nunca" imediatamente!
Eu, hipocondríaco, sintomático, tenho flashback e entro em nóia até com erva natural. ...Nem me arrisco em nada um pouco mais sintetizado!
Eu, hipocondríaco: ao se me despontar um novo amor, já sei, de prévia sabedoria que ele vai durar pouco; que eu vou me entregar de todo; que eu vou sofrer muito... Não, um pouco mais do que isso. Muito mesmo. Já sei que vou ter pano pra manga pra minha poesia por alguns dias. Que o mundo vai acabar e todas aquelas coisas dos hipocondríacos...
E aí eu ligo, escrevo, imploro, me abro como nunca, digo que amo... E no seguinte segundo, "puff" - ela escapuliu! "Eu não disse?!"
...Eu: sintomático!
-- João Otero - 19-jul-10 --
Eu, hipocondríaco, sintomático, quase transformo em febre reumática uma mera streptococcus. Não é que, preocupado em sufocar de dor, acordo eu e entro na internet pra descobrir do que se trata minha chaga; e horas depois, ao acordar novamente no meio da noite, meu dedão do pé tá inchado, doendo, pulsando, como se eu tivesse chutado a quina do balcão - ou como se eu tivesse mesmo é com uma febre reumática?!
Aos hipocondríacos como eu são aos que mais funcionam os placebos, e aos que menos servem os homeopáticos. Pois é só dizer que há uma chance remota de um efeito colateral para ele virar sintoma líquido e certo; e é só dizer que "leva tempo, mas funciona...", que o tempo esse é exagerado, e vira "nunca" imediatamente!
Eu, hipocondríaco, sintomático, tenho flashback e entro em nóia até com erva natural. ...Nem me arrisco em nada um pouco mais sintetizado!
Eu, hipocondríaco: ao se me despontar um novo amor, já sei, de prévia sabedoria que ele vai durar pouco; que eu vou me entregar de todo; que eu vou sofrer muito... Não, um pouco mais do que isso. Muito mesmo. Já sei que vou ter pano pra manga pra minha poesia por alguns dias. Que o mundo vai acabar e todas aquelas coisas dos hipocondríacos...
E aí eu ligo, escrevo, imploro, me abro como nunca, digo que amo... E no seguinte segundo, "puff" - ela escapuliu! "Eu não disse?!"
...Eu: sintomático!
-- João Otero - 19-jul-10 --
Uma Geada
E a manhã alva dos campos de minha terra
Se me tem a camuflar uns lírios, a me apagar as relvas
Anunciada pelo um vento minuano, sempre repentino e forte,
A meio ano
Se me tem trocando o pano pela manta grossa e um pala
Ela que vem e me cala, contragosto, em branca tez
Ela que vem e me pára, num calafrio cortês
Ela que reclama tudo, e cobre tudo, dos meus olhos ao meu pêlo
Mas por baixo dos véus que cegam
Eu sei que brilham as relvas dos meus campos outra vez
E eu aperto meu canto, com nó de lenço vermelho
- Com cheiro de sangue, de guerra -
Para cantar as belezas de minha terra, de onde não me arredo
Por mais judiado que eu seja ao passares
Dama alva, linda... horrenda...
E o meu riso é porque eu sei que não há vento que se prenda!
Te mostro os dentes pois sei que logo após as coxilhas
Tenho o perfume das negras, e a pele-cuia das índias
E os campos que eu sempre quis
Não há pois como eu me renda
A uma passageira prenda
Se no seio da coxilha
Me aguarda tudo o que eu preciso
Para ser feliz
-- João Otero - 19-jul-10 --
Se me tem a camuflar uns lírios, a me apagar as relvas
Anunciada pelo um vento minuano, sempre repentino e forte,
A meio ano
Se me tem trocando o pano pela manta grossa e um pala
Ela que vem e me cala, contragosto, em branca tez
Ela que vem e me pára, num calafrio cortês
Ela que reclama tudo, e cobre tudo, dos meus olhos ao meu pêlo
Mas por baixo dos véus que cegam
Eu sei que brilham as relvas dos meus campos outra vez
E eu aperto meu canto, com nó de lenço vermelho
- Com cheiro de sangue, de guerra -
Para cantar as belezas de minha terra, de onde não me arredo
Por mais judiado que eu seja ao passares
Dama alva, linda... horrenda...
E o meu riso é porque eu sei que não há vento que se prenda!
Te mostro os dentes pois sei que logo após as coxilhas
Tenho o perfume das negras, e a pele-cuia das índias
E os campos que eu sempre quis
Não há pois como eu me renda
A uma passageira prenda
Se no seio da coxilha
Me aguarda tudo o que eu preciso
Para ser feliz
-- João Otero - 19-jul-10 --
09 julho 2010
A minha espera
E eu to ainda pra ver quem vai se abrir num gozo para a vida, encarando num êxtase eterno a duraçao de cada segundo, e viver uma plenitude de sensibilidade sem fechar-se logo em seguida dentro de si e de seus medos privados. Eu to ainda pra ver quem fará sexo com a vida. Eu to ainda pra ver quem vai trocar aqueles poucos segundos de conjunção carnal pela sensibilidade envolvente e mais aflorada de algo mais transcendente. To ainda pra ver quem vai fazer aqueles parcos segundos durarem pra sempre.
07 julho 2010
22 junho 2010
As Bocas Banguelas
As bocas banguelas têm mais sorrisos
As bocas das crias, dos velhos, dos pobres
Se vestem de um manto mais nobre
Do que esses de esmaltes lisos
Não têm caninos tão fortes,
Não refletem externos brilhos,
Não prendem a feroz língua
A boca banguela não míngua seu juízo
As bocas das crias, dos velhos, dos pobres
Não amarelam um sorriso...
-- João Otero - 22-jun-10 --
As bocas das crias, dos velhos, dos pobres
Se vestem de um manto mais nobre
Do que esses de esmaltes lisos
Não têm caninos tão fortes,
Não refletem externos brilhos,
Não prendem a feroz língua
A boca banguela não míngua seu juízo
As bocas das crias, dos velhos, dos pobres
Não amarelam um sorriso...
-- João Otero - 22-jun-10 --
16 junho 2010
texto: Meias Brancas
Meias Brancas
Hoje pela manhã eu descobri sem-querer a solução para o problema do lixo no mundo: meias brancas!
As meias brancas têm a propriedade de sumir com o passar do tempo. Se acondicionarmos todo o lixo do mundo dentro de meias brancas - vupt! - solucionamos o problema do lixo!
...Minha última teoria é a de que as canetas Bic são fabricadas com meias brancas embutidas. Mas é uma hipótese ainda necessitando observações adicionais.
(Isso se elas não sumirem antes...)
-- João Otero - 16-jun-10 --
Hoje pela manhã eu descobri sem-querer a solução para o problema do lixo no mundo: meias brancas!
As meias brancas têm a propriedade de sumir com o passar do tempo. Se acondicionarmos todo o lixo do mundo dentro de meias brancas - vupt! - solucionamos o problema do lixo!
...Minha última teoria é a de que as canetas Bic são fabricadas com meias brancas embutidas. Mas é uma hipótese ainda necessitando observações adicionais.
(Isso se elas não sumirem antes...)
-- João Otero - 16-jun-10 --
10 junho 2010
Olhinhos Minguantes
Olhinhos minguantes -
Como os ciclos enluarados
Dessas minhas paixões retumbantes
Que se camuflam volta e meia em mim
No ocidente, lá praqueles lados...
Onde é renascente - flagelado mas sorridente -
Este meu velho coração cansado
Destas agruras sem-fim
Que vão e vêm, e vêm e saem...
Vazantes como a maré
Perene ciclo constante de novas dores poentes
Mas a espumar-me novamente o peito e a reforçar a minha fé,
...Lá: olhinhos de dó, de pena, de graça;
meiguice; cachaça na mesa dum bar
Tu, extraviadas num canto,
E eu contemplando de longe
À duas mesas de distância, o teu olhar
-- João Otero - 9-jun-10 --
Como os ciclos enluarados
Dessas minhas paixões retumbantes
Que se camuflam volta e meia em mim
No ocidente, lá praqueles lados...
Onde é renascente - flagelado mas sorridente -
Este meu velho coração cansado
Destas agruras sem-fim
Que vão e vêm, e vêm e saem...
Vazantes como a maré
Perene ciclo constante de novas dores poentes
Mas a espumar-me novamente o peito e a reforçar a minha fé,
...Lá: olhinhos de dó, de pena, de graça;
meiguice; cachaça na mesa dum bar
Tu, extraviadas num canto,
E eu contemplando de longe
À duas mesas de distância, o teu olhar
-- João Otero - 9-jun-10 --
09 junho 2010
29 maio 2010
Desencantamento
...E então, querida,
Serás esquecida
Como uma foto amarelada e esmaecida,
Como uma ninguém
Como mais uma formosa entremeada num harém
Serás tão só mais um refrão que um dia eu já cantei
Tu serás quem me esqueceu, e a quem esqueci também
Tu serás rastro de névoa nos quintais de minha vida
Tu serás uma lembrança em alguns cacos repartida
Tu serás doce mistério
Que só o meu passado tem
-- João Otero - 4-29-mai-10 --
Serás esquecida
Como uma foto amarelada e esmaecida,
Como uma ninguém
Como mais uma formosa entremeada num harém
Serás tão só mais um refrão que um dia eu já cantei
Tu serás quem me esqueceu, e a quem esqueci também
Tu serás rastro de névoa nos quintais de minha vida
Tu serás uma lembrança em alguns cacos repartida
Tu serás doce mistério
Que só o meu passado tem
-- João Otero - 4-29-mai-10 --
22 maio 2010
Da procura
Vende-se tragédias!
Tragédias feitas de pó e vento
Que contrapesam êxtases imerecidos
Vende-se tragédias que complementam vidas
-- João Otero - 22-mai-10 --
Tragédias feitas de pó e vento
Que contrapesam êxtases imerecidos
Vende-se tragédias que complementam vidas
-- João Otero - 22-mai-10 --
Porque pediste pra eu falar de cores (Amarelo)
Eu e os ébrios - braços dados numa saudosa harmonia
Sob o reflexo dourado do luar fraterno já minguando mais um dia
Brindo! com mais cinco dedos de gelada alegria
À sapiência deste olhar impreciso
Que vê em dobro a beleza
E que duplica os sorrisos dessas bocas tão macias!
Veja outros poemas da coleção Cores
-- João Otero - 22-mai-10 --
Sob o reflexo dourado do luar fraterno já minguando mais um dia
Brindo! com mais cinco dedos de gelada alegria
À sapiência deste olhar impreciso
Que vê em dobro a beleza
E que duplica os sorrisos dessas bocas tão macias!
Veja outros poemas da coleção Cores
-- João Otero - 22-mai-10 --
14 maio 2010
Pontacabeça
Prólogo:
Eu sei que meu português ficou uma bosta neste texto. Mas não importa muito. A mensagem é o mais importante.
Pontacabeça
Eu olho em volta e vejo tudo muito raso, muito rápido, muito superficial, muito efêmero.
Relacionamentos fast-food, pegos numa caixinha em uma balada da moda qualquer, e largados em alguma lixeira 15 minutos depois.
Todos pegando todos, e ninguém lembrando de ninguém.
Namorados que não se vêem no sábado, que preferem sair com os amigos. Que não sentem falta um do outro.
Vejo beijos fazendo fila na boca de qualquer um/uma...
Vejo a ostentação sendo usada muito eficazmente como uma arma na busca por sexo... E vejo pessoas caindo nessa! O ingresso de tanto, o passe que é VIP, o dono de tal empresa, o "amigo" influente, a bebida mais cara, a casa da moda, as roupas de marca, o carro mais caro...
Eu vejo a sinceridade virando algo conveniente e circunstancial: não ouço mentiras, mas tampouco ouço as verdades, pois elas são escondidas.
Eu vejo a falta de franqueza; a falta do vou-dizer-na-tua-cara.
Eu vejo a falta de envolvimento, despreocupação com os sentimentos alheios: vejo um jogo de conquistas, e os sentimentos virarem troféus.
Eu vejo a busca pelo prazer rápido, descomprometido, descartável.
Eu vejo relacionamentos tapa-buracos, convenientes para preencher as happy(dead)-hours pós trabalho.
Vejo pessoas se comunicando online num domingo, estando na mesma cidade, estando às vezes na mesma sala...
Eu fico triste vendo as pessoas se tratando e sendo tratadas como joguetes.
Amigos amarelos; máscaras sociais; joguinhos sociais; comportamentos subliminares.
Eu vejo todas essas coisas em excesso, dia após dia. E me falta o que preencha a minha alma. E duvido que essas coisas preencham alguma alma, aliás.
Eu sinto pena pelas pessoas que agem assim; e que de fato acreditam (isso é o pior) estarem fazendo o melhor para si. Pena porque talvez nunca descubram de verdade uma felicidade mais longa.
Eu vejo pressa em ter-se o que não importa, e paciência demais, morosidade demais em se buscar as coisas que importam. Todos querem status, carreira, dinheiro; ninguém quer música, companheirismo, risadas, jantar em família...
Todos perguntam "O que você faz?"; ninguém pergunta "O que você quer fazer?".
Todos perguntam "Onde você mora?"; ninguém pergunta "Aonde você vai?".
Eu vejo conformismo, e isso me indigna...
Valores invertidos. Mundo de pontacabeça.
Eu vejo escravos da vida estudar-trabalhar-casar-ter-filhos; escravos das normas; escravos do que a família-amigos-sociedade vai pensar; escravos do conformismo das coisas-que-são-assim-e-não-vão-mudar.
Eu vejo pessoas desistindo de tudo muito fácil, pelas mais esfarrapadas desculpas: desistindo dos sonhos, desistindo de uma paixão, desistindo de uma aventura, desistindo de um amor. Mentem à si mesmas.
Eu vejo pessoas desacreditando que a bondade existe em maior oferta no coração das pessoas do que existem a sacanagem, a malandragem, a maldade, o desrespeito.
Isso me lembra um pouco o fundamento do terrorismo, sobrevivente pelos noticiários da noite ou através das páginas policiais de jornal... Porque embora haja sim sacanagem, malandragem e maldade, tudo isso é muito pequeno, mas causa um impacto muito grande.
As pessas mudam de comportamento porque amplificam uma percepção negativa muito além do que deveriam. As pessoas mudam de comportamento porque passam a sentir medo demais. E todos, aterrorizados, ficam imóveis. Rugido de um tigre: pessoas imóveis! Situação adversa: pessoas imóveis! Terrorismo: pessoas imóveis! Medos, medos, medos: pessoas imóveis dentro de si; pessoas egoístas; pessoas que não se deixam levar. Merda de cérebro que funciona assim.
E eu vejo muitas pessoas com medo: de sofrer, de se entregar, de persistir, de se arriscar... Morrendo sem saber. Vivendo sem sentir. Sentindo até, mas muito pouco; muito menos do que poderiam... E por que? Porque têm medo. Não há como sentir o máximo sem que seja se arriscando ao máximo também.
Mas o medo de sentir-se mal é maior do que o benefício de sentir-se bem, paradoxalmente.
Isso não entra na minha cabeça: como alguém prefere o não-sentir ao sentir-se muito bem, só por existir um risco de sentir-se mal?! Zumbis... Zumbis é que não sentem! Sinto como se tivesse nascido no lugar errado, na época errada.
Que graça tem viver uma vida que um dia acaba - sempre - se for só pra deixar ela passar pela gente?! Sentir-se mal, que seja, não vale mais a pena?! Sentir-se bem, não vale o risco?!
Só a coragem enfrenta o medo. Só a fé - que é acreditar por acreditar, sem ter certezas - é capaz de gerar coragem.
Falta fé.
Eu só quero dizer que eu não faço parte dessa merda.
Um contra-argumento seria me perguntar se eu sou feliz. Não sou; e é cada vez mais difícil. Mas eu ainda tenho fé.
E quando eu for, vai ser 100%, não pela metade.
A minha fé é que haja mais alguém que também não faça parte dessa merda toda... E se houver, não diga, simplesmente: haja com um pouco mais de caráter, com uma pitada a mais de coragem. Terás assim ajudado o mundo a viver um pouco melhor. E terás me ajudado também.
-- João Otero - 14-mai-10 --
Eu sei que meu português ficou uma bosta neste texto. Mas não importa muito. A mensagem é o mais importante.
Pontacabeça
Eu olho em volta e vejo tudo muito raso, muito rápido, muito superficial, muito efêmero.
Relacionamentos fast-food, pegos numa caixinha em uma balada da moda qualquer, e largados em alguma lixeira 15 minutos depois.
Todos pegando todos, e ninguém lembrando de ninguém.
Namorados que não se vêem no sábado, que preferem sair com os amigos. Que não sentem falta um do outro.
Vejo beijos fazendo fila na boca de qualquer um/uma...
Vejo a ostentação sendo usada muito eficazmente como uma arma na busca por sexo... E vejo pessoas caindo nessa! O ingresso de tanto, o passe que é VIP, o dono de tal empresa, o "amigo" influente, a bebida mais cara, a casa da moda, as roupas de marca, o carro mais caro...
Eu vejo a sinceridade virando algo conveniente e circunstancial: não ouço mentiras, mas tampouco ouço as verdades, pois elas são escondidas.
Eu vejo a falta de franqueza; a falta do vou-dizer-na-tua-cara.
Eu vejo a falta de envolvimento, despreocupação com os sentimentos alheios: vejo um jogo de conquistas, e os sentimentos virarem troféus.
Eu vejo a busca pelo prazer rápido, descomprometido, descartável.
Eu vejo relacionamentos tapa-buracos, convenientes para preencher as happy(dead)-hours pós trabalho.
Vejo pessoas se comunicando online num domingo, estando na mesma cidade, estando às vezes na mesma sala...
Eu fico triste vendo as pessoas se tratando e sendo tratadas como joguetes.
Amigos amarelos; máscaras sociais; joguinhos sociais; comportamentos subliminares.
Eu vejo todas essas coisas em excesso, dia após dia. E me falta o que preencha a minha alma. E duvido que essas coisas preencham alguma alma, aliás.
Eu sinto pena pelas pessoas que agem assim; e que de fato acreditam (isso é o pior) estarem fazendo o melhor para si. Pena porque talvez nunca descubram de verdade uma felicidade mais longa.
Eu vejo pressa em ter-se o que não importa, e paciência demais, morosidade demais em se buscar as coisas que importam. Todos querem status, carreira, dinheiro; ninguém quer música, companheirismo, risadas, jantar em família...
Todos perguntam "O que você faz?"; ninguém pergunta "O que você quer fazer?".
Todos perguntam "Onde você mora?"; ninguém pergunta "Aonde você vai?".
Eu vejo conformismo, e isso me indigna...
Valores invertidos. Mundo de pontacabeça.
Eu vejo escravos da vida estudar-trabalhar-casar-ter-filhos; escravos das normas; escravos do que a família-amigos-sociedade vai pensar; escravos do conformismo das coisas-que-são-assim-e-não-vão-mudar.
Eu vejo pessoas desistindo de tudo muito fácil, pelas mais esfarrapadas desculpas: desistindo dos sonhos, desistindo de uma paixão, desistindo de uma aventura, desistindo de um amor. Mentem à si mesmas.
Eu vejo pessoas desacreditando que a bondade existe em maior oferta no coração das pessoas do que existem a sacanagem, a malandragem, a maldade, o desrespeito.
Isso me lembra um pouco o fundamento do terrorismo, sobrevivente pelos noticiários da noite ou através das páginas policiais de jornal... Porque embora haja sim sacanagem, malandragem e maldade, tudo isso é muito pequeno, mas causa um impacto muito grande.
As pessas mudam de comportamento porque amplificam uma percepção negativa muito além do que deveriam. As pessoas mudam de comportamento porque passam a sentir medo demais. E todos, aterrorizados, ficam imóveis. Rugido de um tigre: pessoas imóveis! Situação adversa: pessoas imóveis! Terrorismo: pessoas imóveis! Medos, medos, medos: pessoas imóveis dentro de si; pessoas egoístas; pessoas que não se deixam levar. Merda de cérebro que funciona assim.
E eu vejo muitas pessoas com medo: de sofrer, de se entregar, de persistir, de se arriscar... Morrendo sem saber. Vivendo sem sentir. Sentindo até, mas muito pouco; muito menos do que poderiam... E por que? Porque têm medo. Não há como sentir o máximo sem que seja se arriscando ao máximo também.
Mas o medo de sentir-se mal é maior do que o benefício de sentir-se bem, paradoxalmente.
Isso não entra na minha cabeça: como alguém prefere o não-sentir ao sentir-se muito bem, só por existir um risco de sentir-se mal?! Zumbis... Zumbis é que não sentem! Sinto como se tivesse nascido no lugar errado, na época errada.
Que graça tem viver uma vida que um dia acaba - sempre - se for só pra deixar ela passar pela gente?! Sentir-se mal, que seja, não vale mais a pena?! Sentir-se bem, não vale o risco?!
Só a coragem enfrenta o medo. Só a fé - que é acreditar por acreditar, sem ter certezas - é capaz de gerar coragem.
Falta fé.
Eu só quero dizer que eu não faço parte dessa merda.
Um contra-argumento seria me perguntar se eu sou feliz. Não sou; e é cada vez mais difícil. Mas eu ainda tenho fé.
E quando eu for, vai ser 100%, não pela metade.
A minha fé é que haja mais alguém que também não faça parte dessa merda toda... E se houver, não diga, simplesmente: haja com um pouco mais de caráter, com uma pitada a mais de coragem. Terás assim ajudado o mundo a viver um pouco melhor. E terás me ajudado também.
-- João Otero - 14-mai-10 --
07 maio 2010
Teus Cabelos
Não há mais os teus cabelos pelo banco do meu carro...
Mas há um fiapo... Há um fiapo ainda aqui!
Desses cabelos que um dia eu conheci
Com as pontas de meus dedos
Desses cabelos que eu até senti
Uma vez o gosto, o medo...
O cheiro! - perfumado de vaidade
...Esse fiapo dos teus cabelos
se enosou na minha saudade
-- João Otero - 7-mai-10 --
Mas há um fiapo... Há um fiapo ainda aqui!
Desses cabelos que um dia eu conheci
Com as pontas de meus dedos
Desses cabelos que eu até senti
Uma vez o gosto, o medo...
O cheiro! - perfumado de vaidade
...Esse fiapo dos teus cabelos
se enosou na minha saudade
-- João Otero - 7-mai-10 --
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