08 janeiro 2012

O ócio

o ócio
é simplesmente mais um pouco
de tudo o que é fútil
de tudo o que é pífio
um grito que é rouco
é o sócio da agonia
com maestria encarnada em dó
é aquele nó da garganta
de quem não mais se levanta
com a pancada de um soco
é quando o espírito, roto,
já desistiu
virou pó

-- João Otero - 9-jan-2012 --

Transitório

quando se chora de alegria
é por perceber
que tudo o que sempre se queria
jamais voltará a ser

-- João Otero - 8-01-2012 --

04 janeiro 2012

Minha poesia samba

Gosto da imagem da língua
batucando o céu da boca
abafando as notas mudas
de cada letra
como quem samba

Eu gosto da rima pobre
que rima mais, com muitas cores;
pois não é a alegoria
do fim da frase
que me faz bamba

...É esse embalo na rima
e a embriaguez deturpando
duas palavras amigas
de fim-de-festa,
quando se camba

-- João Otero - 5-jan-2012 --
Já não faço mais resoluções de fim-de-ano.
Tampouco reclamo do ano passante ou o menosprezo. Não espero mais que o ano que vem seja melhor.

Torço simplesmente para que ele não me traga maiores problemas do que trouxe o que já se vai (porque vendo daqui, até foi fácil...). Mas não é nem ao ano a quem eu rogo; é a mim mesmo. Decisões mais sábias, mais experiência.

Experiência que aprendi a consolidar com uma retrospectiva de tudo de bom que aconteceu nesse ano que passou. E teve muita coisa boa. Abro um sorriso porque eu sei que o próximo vai ser ainda melhor.

E quanto ao primeiro do ano, é simplesmente uma continuação dessa trilha. Não tenho nada para renovar ou prometer. Baixar cabeça e continuar trabalhando. Não se mexe em time que está ganhando, afinal.

Começar tudo de novo é burrice. O caminho percorrido é parte da trilha.

26 dezembro 2011

Da poesia

A poesia
a mim
vem como uma criança
assim
como a esperança
de voltar a sentir aqueles anos
tão cheios de planos
tão leves de enganos
por mais um dia

-- João Otero - 27-dez-2011 --

Parreiras

Parreiras de uva
- e de que mais seriam?!
De cachos dourados?
De cachos que brilham...?

Parreiras de amantes
fugidos da chuva
Pecados travessos
com gosto de uva

-- João Otero - 23-dez-2011 --

17 dezembro 2011

Faquir

Faquir

foi faquir de seus próprios sonhos
com agulhadas, com nostalgia
foram tantos os desesperos que nem mais sentia
e nessa cama de cacos a sempre embalar seu sono
suspendeu-se acima de quaisquer mazelas
e com nenhuma ferida, em apatia
pairou lá, adormecida, e nem sabia
que lhe ninavam as estrelas

-- João Otero - 17-dez-2011 --

30 outubro 2011

O silêncio e a sacolinha

o silêncio roçou meus dentes
despido de melodia
...ele simplesmente não sabia
 qual nota desafinar

logo o vi dobrando a esquina
pegar carona num vento
e assobiar...

fugiu com uma sacolinha...
e talvez tenha esquecido
algumas palavras pra trás

-- João Otero - 31-out-2011 --

26 outubro 2011

Olhos de ver

quando nasceu o meu olhar
desabrochando um sonho
com olhos de ver
que eu nunca havia tido

quando antevi o perigo
que a estabilidade tem
em embalar o tempo
com mesmice

resgatei a criancice
inocente do impossível
e pintei uma tela
com o que não existe

e então eu soube por que viver

-- João Otero - 26-out-2011 --

23 outubro 2011

Porque pediste pra eu falar de cores (Verde)

                         E a barba grisalha de um velho
                         que ali mendiga
                         E a esperança...

                         E o limo, a pedra, a Pátria
                         escorregando
                         E a desavença...

                         E a folha tão frágil
                         tombando
                         Mas não ao vento

                         E a mata - enquanto há mata -
                         antes que mate-se
                         o sentimento


Veja outros poemas da coleção Cores

-- João Otero - 23-out-2011 --

20 outubro 2011

Poetic Dialog with Robert Frost

Poetic Dialog with Robert Frost

I know, my friend, I'm getting old.
And true, some things are hard to hold...
The golden green of morning breath;
And drops of hope along the path.
As we both know, the bright sun fades.
Yet, in the poles, it longer stays.
I'd rather sit here far away
but keep this gold all day.

-- João Otero - oct-20-2011 --

16 outubro 2011

Porque pediste pra eu falar de cores (Marrom)

                                  ...e vi as folhas caindo
                                  embalando o tempo
                                  a levantar poeira

                                  há a foto velha em minha memória
                                  alguns cafés às tardes virando história

                                  e vou vivendo à brasileira
                                  neste passatempo
                                  às vezes lindo...


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-- João Otero - 16-out-2011 --

14 outubro 2011

Linda

métrica perfeita da formosura...
alguma coisa que tens é a loucura
renunciando a minha cautela
traíste a beleza: és mais bela!
incandesceste a ternura
na perfeição que modela
atentamente teus traços
lapidados em um só passo
intencional de candura
nem mesmo um dó se desvela...
dessa dor que me flagela
aténs-te à beleza mais pura

-- João Otero - 14-out-2011 --

11 outubro 2011

Porque pediste pra eu falar de cores (Vermelho)

                                  E há essa rubra feição em meio à ingênua maldade
                                  ...esse rubror da serpente;
                                  a cor das maçãs na face
                                  E há o borrado batom nas esquinas da cidade
                                  ...esse rosado que veste
                                  a nua pele em disfarce
                                  E o há numa língua ansiosa, porém que diz a verdade
                                  Ele, às paixões, dá uma rosa
                                  ou tinge o chicote que arde


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-- João Otero - 11-10-11 --

06 outubro 2011

Lágrimas




Lágrimas lustrosas!
Lisonjeando - lastimosas - lindas linhas,
lisos lábios,
lúdicas línguas...
Liras lacrimosas!
Lastros latejantes!
Listrando leves lâminas,
lancinantes  lástimas,
lânguidos cortes...



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-- João Otero - 28-set-2011 --

03 outubro 2011

Saudade





sorriso: saudade
solidão... so sad
saída? sei lá...
sossego? someday...
se saio sorrindo,
- será? - sonhei!



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-- João Otero - 3-out-2011 --

16 setembro 2011

A minha alma

A minha alma

roendo as unhas
rangendo os dentes
mexendo as pernas
resmungo preces

e a minha alma
antes desnuda
de que se veste?

atrás dos panos
depois dos planos
passado os anos
ela se veste...

a minha alma
regada a sonhos
me desmerece

-- João Otero - 16-set-2011 --

21 agosto 2011

Reflexão Cinestésica para Pensar em Voz Alta

Reflexão Cinestésica para Pensar em Voz Alta


                                                                    Uma vela
                                                                    acesa pra ver...
[1 pausa]
                                                                     Mas quantas velas
                                                                     pra não se poder mais
                                                                     conseguir olhar?
[1 pausa]
                                                                     E tantos corações
                                                                     fazendo o peito bater
[1 pausa]
[sussurrando:]                                              mais rápido
[1 pausa]
                                                                      Mas um só coração
                                                                      deixando o peito pairar
[1 pausa]
[sussurrando:]                                               estático
[2 pausas]

                                                                       O que devem fazer
[inspira fundo, enchendo todo o pulmão]
[em voz alta, num só sopro:]                          aqueles que sorvem os extremos sem
                                                                                   /nem sequer saber que gotas
                                                                                   /são mares e mares são poças?
[inspira fundo]
                                                                        ...Questões que são perigosas
[1/2 pausa]
                                                                         em faltar respostas.





-- João Otero - 21-ago-2011 --

28 julho 2011

música: Teu herói

Teu herói

eu queria poder te embalar
numa nota alegre, todo dia
eu queria fazer versos de criança
imaginando
como será a vida

eu queria poder fingir que não cresci
e sair piruetando
por aí

mas não cabe, meu nenêm,
muito mais de fantasia
quando a noite é fria
e o dia vem

eu queria te dizer que a matemática
e que todas as coisas têm sentido
e que brincar com fogo é pura mágica
e que brincar no mar não tem perigo

mas eu preciso te dizer que a saudade dói
e que eu queria poder ser teu herói
pra te dar a mão
te proteger das armadilhas
do teu coração
...pois eu sei que elas vêm
(mas também passam como um trem)

    só sei que eu vou te ver
    eu vou te ver
    mesmo que passe um tempo
    longe de você
    eu sei que eu vou te ver
    eu vou te ver
    mesmo que caia o mundo
    eu vou ir te ver

eu queria te dizer que beterraba é bom
e que você nunca irá desafinar o tom
eu queria te dizer que não engorda o chocolate
e que não morde mesmo o cão que late
...mas não posso ignorar o pára-brisa
balançando essa chuva
neste dia cinza
...quando você crescer
você vai me entender

    só sei que eu vou te ver
    eu vou te ver
    mesmo que passe um tempo
    longe de você
    eu sei que eu vou te ver
    eu vou te ver
    mesmo que caia o mundo
    eu vou ir te ver

e se acaso a professora te aborreça
eu queria te contar que ela é besta
mesmo que um dia você cresça
e que mudem as vontades na cabeça
não se esqueça de ser você
nunca desapareça
meu bebê

    só sei que eu vou te ver
    eu vou te ver
    mesmo que passe um tempo
    longe de você
    eu sei que eu vou te ver
    eu vou te ver
    mesmo no fim do mundo
    eu vou ir te ver

-- João Otero - 27-jul-2011 - pelos meus 31 anos, para minha sobrinha Valentina --

20 julho 2011

Minha Voz - outra versão

Minha Voz - outra versão

minha voz
fala em gestos, embalada
num compasso triste
como se comendo alpiste
grão por grão

minha voz
tem a garganta machucada
de ajoelhar-se dia a dia
na costumeira agonia
da mesma lição

-- João Otero 19-20/jul/2011  --