26 dezembro 2011

Parreiras

Parreiras de uva
- e de que mais seriam?!
De cachos dourados?
De cachos que brilham...?

Parreiras de amantes
fugidos da chuva
Pecados travessos
com gosto de uva

-- João Otero - 23-dez-2011 --

17 dezembro 2011

Faquir

Faquir

foi faquir de seus próprios sonhos
com agulhadas, com nostalgia
foram tantos os desesperos que nem mais sentia
e nessa cama de cacos a sempre embalar seu sono
suspendeu-se acima de quaisquer mazelas
e com nenhuma ferida, em apatia
pairou lá, adormecida, e nem sabia
que lhe ninavam as estrelas

-- João Otero - 17-dez-2011 --

30 outubro 2011

O silêncio e a sacolinha

o silêncio roçou meus dentes
despido de melodia
...ele simplesmente não sabia
 qual nota desafinar

logo o vi dobrando a esquina
pegar carona num vento
e assobiar...

fugiu com uma sacolinha...
e talvez tenha esquecido
algumas palavras pra trás

-- João Otero - 31-out-2011 --

26 outubro 2011

Olhos de ver

quando nasceu o meu olhar
desabrochando um sonho
com olhos de ver
que eu nunca havia tido

quando antevi o perigo
que a estabilidade tem
em embalar o tempo
com mesmice

resgatei a criancice
inocente do impossível
e pintei uma tela
com o que não existe

e então eu soube por que viver

-- João Otero - 26-out-2011 --

23 outubro 2011

Porque pediste pra eu falar de cores (Verde)

                         E a barba grisalha de um velho
                         que ali mendiga
                         E a esperança...

                         E o limo, a pedra, a Pátria
                         escorregando
                         E a desavença...

                         E a folha tão frágil
                         tombando
                         Mas não ao vento

                         E a mata - enquanto há mata -
                         antes que mate-se
                         o sentimento


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-- João Otero - 23-out-2011 --

20 outubro 2011

Poetic Dialog with Robert Frost

Poetic Dialog with Robert Frost

I know, my friend, I'm getting old.
And true, some things are hard to hold...
The golden green of morning breath;
And drops of hope along the path.
As we both know, the bright sun fades.
Yet, in the poles, it longer stays.
I'd rather sit here far away
but keep this gold all day.

-- João Otero - oct-20-2011 --

16 outubro 2011

Porque pediste pra eu falar de cores (Marrom)

                                  ...e vi as folhas caindo
                                  embalando o tempo
                                  a levantar poeira

                                  há a foto velha em minha memória
                                  alguns cafés às tardes virando história

                                  e vou vivendo à brasileira
                                  neste passatempo
                                  às vezes lindo...


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-- João Otero - 16-out-2011 --

14 outubro 2011

Linda

métrica perfeita da formosura...
alguma coisa que tens é a loucura
renunciando a minha cautela
traíste a beleza: és mais bela!
incandesceste a ternura
na perfeição que modela
atentamente teus traços
lapidados em um só passo
intencional de candura
nem mesmo um dó se desvela...
dessa dor que me flagela
aténs-te à beleza mais pura

-- João Otero - 14-out-2011 --

11 outubro 2011

Porque pediste pra eu falar de cores (Vermelho)

                                  E há essa rubra feição em meio à ingênua maldade
                                  ...esse rubror da serpente;
                                  a cor das maçãs na face
                                  E há o borrado batom nas esquinas da cidade
                                  ...esse rosado que veste
                                  a nua pele em disfarce
                                  E o há numa língua ansiosa, porém que diz a verdade
                                  Ele, às paixões, dá uma rosa
                                  ou tinge o chicote que arde


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-- João Otero - 11-10-11 --

06 outubro 2011

Lágrimas




Lágrimas lustrosas!
Lisonjeando - lastimosas - lindas linhas,
lisos lábios,
lúdicas línguas...
Liras lacrimosas!
Lastros latejantes!
Listrando leves lâminas,
lancinantes  lástimas,
lânguidos cortes...



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-- João Otero - 28-set-2011 --

03 outubro 2011

Saudade





sorriso: saudade
solidão... so sad
saída? sei lá...
sossego? someday...
se saio sorrindo,
- será? - sonhei!



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-- João Otero - 3-out-2011 --

16 setembro 2011

A minha alma

A minha alma

roendo as unhas
rangendo os dentes
mexendo as pernas
resmungo preces

e a minha alma
antes desnuda
de que se veste?

atrás dos panos
depois dos planos
passado os anos
ela se veste...

a minha alma
regada a sonhos
me desmerece

-- João Otero - 16-set-2011 --

21 agosto 2011

Reflexão Cinestésica para Pensar em Voz Alta

Reflexão Cinestésica para Pensar em Voz Alta


                                                                    Uma vela
                                                                    acesa pra ver...
[1 pausa]
                                                                     Mas quantas velas
                                                                     pra não se poder mais
                                                                     conseguir olhar?
[1 pausa]
                                                                     E tantos corações
                                                                     fazendo o peito bater
[1 pausa]
[sussurrando:]                                              mais rápido
[1 pausa]
                                                                      Mas um só coração
                                                                      deixando o peito pairar
[1 pausa]
[sussurrando:]                                               estático
[2 pausas]

                                                                       O que devem fazer
[inspira fundo, enchendo todo o pulmão]
[em voz alta, num só sopro:]                          aqueles que sorvem os extremos sem
                                                                                   /nem sequer saber que gotas
                                                                                   /são mares e mares são poças?
[inspira fundo]
                                                                        ...Questões que são perigosas
[1/2 pausa]
                                                                         em faltar respostas.





-- João Otero - 21-ago-2011 --

28 julho 2011

música: Teu herói

Teu herói

eu queria poder te embalar
numa nota alegre, todo dia
eu queria fazer versos de criança
imaginando
como será a vida

eu queria poder fingir que não cresci
e sair piruetando
por aí

mas não cabe, meu nenêm,
muito mais de fantasia
quando a noite é fria
e o dia vem

eu queria te dizer que a matemática
e que todas as coisas têm sentido
e que brincar com fogo é pura mágica
e que brincar no mar não tem perigo

mas eu preciso te dizer que a saudade dói
e que eu queria poder ser teu herói
pra te dar a mão
te proteger das armadilhas
do teu coração
...pois eu sei que elas vêm
(mas também passam como um trem)

    só sei que eu vou te ver
    eu vou te ver
    mesmo que passe um tempo
    longe de você
    eu sei que eu vou te ver
    eu vou te ver
    mesmo que caia o mundo
    eu vou ir te ver

eu queria te dizer que beterraba é bom
e que você nunca irá desafinar o tom
eu queria te dizer que não engorda o chocolate
e que não morde mesmo o cão que late
...mas não posso ignorar o pára-brisa
balançando essa chuva
neste dia cinza
...quando você crescer
você vai me entender

    só sei que eu vou te ver
    eu vou te ver
    mesmo que passe um tempo
    longe de você
    eu sei que eu vou te ver
    eu vou te ver
    mesmo que caia o mundo
    eu vou ir te ver

e se acaso a professora te aborreça
eu queria te contar que ela é besta
mesmo que um dia você cresça
e que mudem as vontades na cabeça
não se esqueça de ser você
nunca desapareça
meu bebê

    só sei que eu vou te ver
    eu vou te ver
    mesmo que passe um tempo
    longe de você
    eu sei que eu vou te ver
    eu vou te ver
    mesmo no fim do mundo
    eu vou ir te ver

-- João Otero - 27-jul-2011 - pelos meus 31 anos, para minha sobrinha Valentina --

20 julho 2011

Minha Voz - outra versão

Minha Voz - outra versão

minha voz
fala em gestos, embalada
num compasso triste
como se comendo alpiste
grão por grão

minha voz
tem a garganta machucada
de ajoelhar-se dia a dia
na costumeira agonia
da mesma lição

-- João Otero 19-20/jul/2011  --

Comemoremos

comemoremos
os remos que levam a vida
como morremos
comemoremos
os vermes que comem
oremos

-- João Otero - 20-jul-2011 --

19 julho 2011

How should the sound have been
if from the skin you cut
there was no other but
your very own blood?

-- João Otero - 19-jul-2011 --
minha voz
se embala em gestos
num compasso triste
como se comendo alpiste
grão por grão

-- João Otero - 19-jul-2011 --

18 julho 2011

Adiante



quero da minha vida
    que passe um segundo adiante
    e que desta hora, irradiante
        se derrame pelo tempo
        deixando atrás o momento
            que pensei ter visto
            como artefato bem-quisto           
                de um futuro que aguardava
                e que agora, com uma clava
me fere o peito.


-- João Otero - 18-jul-2011 --

17 julho 2011

Para lembrar de não ser idiota

Para lembrar de não ser idiota.

A luz é fraca, quase negra, não ilumina. E piscou um pouco até que parou.
Pela fresta da janela eu vejo as folhas de uma árvore balançando ao vento desta noite acinzentada. Garoou o dia inteiro...
De fundo, eu ouço um jazz bem brasileiro na voz dôce de uma negra. Negra como este escuro em que estou. Ouvindo o barulho de água roçando no brasilite.
Não; não é da chuva lá fora. Sou eu, sozinho aqui neste escuro, tentado - bêbado - acertar o mijo no lugar que lhe pertence.
Mijo, sim. Sem vergonha. Por que eu haveria de ter?! Todos mijam... Eu inclusive.
Vergonha, não: há de se guardar o pudor para coisas mais nojentas. Como a burrice, por exemplo. Como a minha burrice...
Que eu tento exorcizar nesse mijo. Que eu tento exorcizar nestas palavras.
Pois no banheiro fedorento de um bar de jazz só se chega depois de algumas cervejas.
No meu caso, ainda somente após confundir a porta da cozinha com porta de banheiro por duas vezes - até entender que, não, não é um mijão eterno preso na portinhola; e sim o cozinheiro. A porta do banheiro é a do outro lado. Mas porra de arquiteto, também!, que pôs a placa do banheiro antes das duas portas.
No meu caso ainda, só depois de muitas cervejas. A ponto de confundir a porta da cozinha com a porta do banheiro duas vezes. Mas acho que já disse isso...
E este jazz, neste bar, é somente a chave dourada para encerrar o meu dia cinzento. Moroso. Chato pra cacete! - se querem mesmo saber.
O dia em que tudo deu errado.
Desde meus times perderem, a mesa do bar quebrar, o pedido ser entregue errado, perder a ex-futura-quase-namorada.
...É, teve essa parte também neste dia.
Teria, por acaso, outro motivo mais nobre para se mijar ao som dum jazz?!
Eu sempre tive uma certa melancolia intrínsica em mim mesmo. E às vezes ela aflora. Se solidão, se pressentimento ou se apenas efeito do Fernando Pessoa a altas horas da madrugada, não sei. Só sei que ela aflora.
E nessas horas, minha cabeça vira um lixo. Junta as peças, conjetura tudo. E invariavelmente conclui que a vida é uma merda.
E em dias como hoje, a vida é realmente essa merda.
Porque não há espaço - parece-me - aos ingênuos, aos sinceros; aos idiotas, em suma, como eu. E por menos ingênuo que eu seja, nessas situações sou um completo idiota.
Porque qual o sonhador que não é idiota? Qual o idealista que não é idiota? Quem, em santa inteligência, acreditaria que as coisas são realmente simples, que tudo é possível, que a distância entre dois amantes separados por mil quilômetros é apenas a largura de um avião, que pelo computador se pode conhecer a pessoa de nossas vidas? Quem em santa inteligência acreditaria que meses de conversa e o som da voz no telefone, e um café ou dois, e umas voltas de carro bastariam para conhecer alguém? Quem em santa inteligente idiotice acredita em juras suspiradas ao pé do ouvido - depois de um beijo?
Nem parece eu! Euzíssimo eu mesmo! Eu, o eu burro - não este, realista. Eu, mais uma vez...
Então bebo. E ouço jazz.
Bebo e ouço jazz porque me seda a burrice.
Porque apesar de não acelerar o tempo, o disfarça.
Serve-me como o remédio - que só tapeia a chaga até que o corpo, por conta, a cure.
Como o remédio, hoje servem-me a cerveja e a cachaça; que se não me cura, pelo menos disfarça a dor que só o tempo cura.
Mijo o que eu puder dessa memória. Mijo lembrando da cara dela.
Mijo com nojo, querendo mijar de mim tudo o que eu me lembro.
Ou talvez não devesse esquecer? Para deixar de ser idiota!
...Ok! Então, eis uma marca de estilete em minha memória.
E que fique aqui neste blog, para todo o sempre.
Amém.

-- João Otero - 17-jul-11 --